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Líder de COP no Brasil, Ana Toni diz que EUA freiam políticas climáticas de outros países

08/10/2026

Com sua estratégia comercial, os Estados Unidos têm dificultado o avanço de políticas climáticas de outros países, na avaliação de Ana Toni, CEO da COP30, cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática realizada no ano passado, em Belém.
"Direta e indiretamente, os Estados Unidos têm influenciado de forma muito negativa a capacidade de outros países de avançar na implementação de medidas para combater o aquecimento global", disse, em entrevista à agência de notícias AFP.
Em 2025, o presidente americano, Donald Trump, retirou novamente o país do Acordo de Paris. Além disso, segundo ela, a guerra de tarifas e pressões dos EUA estão condicionando o cumprimento da agenda climática de outras nações.
Junto do chefe da COP30, o diplomata André Corrêa do Lago, Toni conduz a elaboração de um "roteiro" para o abandono dos combustíveis fósseis. A previsão é que o documento seja entregue até a edição deste ano da conferência, em Antália, na Turquia, entre 9 e 20 de novembro.
A poucas semanas do evento, ela criticou a "falta de solidariedade" das nações mais ricas com os países em desenvolvimento, que reivindicam recursos financeiros para se adaptar à emergência do clima.
"É de se perguntar o que ainda precisa acontecer para que as imagens vistas no Nepal sensibilizem a população dos países ricos", disse, em referência ao colapso de uma geleira que deixou centenas de mortos no país em agosto.
A rivalidade entre Estados Unidos e China influencia essa engrenagem, de acordo com a especialista, que também chefia a Secretaria Nacional de Mudança Climática do Ministério do Meio Ambiente.
"Os países ficam mais relutantes em importar produtos chineses de baixo carbono por medo de represálias dos Estados Unidos", afirmou. Isso também se daria pela pressão por consumir produtos de fabricação norte-americana e com uma pegada de carbono maior.
"Isso, evidentemente, reduz a capacidade desses países de adotar metas de descarbonização mais ambiciosas", avaliou.
Ana Toni destacou que a crise no estreito de Ormuz, que provocou escassez de combustível na Ásia e aumentos generalizados dos preços da energia, demonstra que a dependência do petróleo pode ser muito prejudicial ao equilíbrio econômico global.
"É a prova de que fazer a transição para além dos combustíveis fósseis não serve apenas para combater as mudanças climáticas, mas também é uma questão de soberania, além de ajudar a resolver um problema econômico e proporcionar segurança energética", afirmou à AFP.
Em 2023, em Dubai, o acordo final da cúpula da ONU anunciava o "princípio do fim" dos combustíveis fósseis. Mas a questão ficou de fora dos documentos nas COPs seguintes devido à pressão dos países produtores.
Na COP30, para acomodar a demanda por uma posição mais firme sobre o tema, a presidência brasileira se comprometeu a promover um "roteiro" global para o abandono gradual e voluntário do petróleo, do carvão e do gás. Toni teve papel fundamental nesse documento, que deve ser apresentado no início de novembro, dias antes do início da COP31.
Neste ano, em um arranjo inédito, a anfitriã Turquia dividirá a chefia com a Austrália, grande exportadora de carvão, que ficará encarregada de conduzir as negociações.
A dirigente detalhou que o documento não fará recomendações país por país, nem proporá metas numéricas ou cronogramas, mas as tratará de maneira geral, de acordo com o nível de dependência de cada nação em relação aos combustíveis fósseis.
"Todos os países podem avançar para reduzir sua exposição [ao petróleo, ao gás e ao carvão] e seguir por essa transição, embora partam de pontos muito diferentes", afirmou.
Toni considerou "positiva" a iniciativa turca de promover voluntariamente a eletrificação de setores como transporte, construção e indústria para reduzir as emissões. Organizações ambientais alertam que o aumento proposto pela Turquia —para 35% a participação da eletricidade no consumo global de energia até 2035— deve vir de fontes renováveis.
Ela também comentou as eleições presidenciais em curso no Brasil. O primeiro turno terminou com o candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro (PL) à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que apoiou políticas para grandes reduções no desmatamento no país.
Em caso de mudança, Toni pede que o Brasil não retome a política de desmatamento em massa de Jair Bolsonaro e mantenha a tendência do último ano, quando a amazônia brasileira teve o menor nível de desmatamento da última década.
Segundo ela, essa política não foi boa apenas para o meio ambiente, mas também fundamental para as relações comerciais e diplomáticas do Brasil. "O próprio agronegócio brasileiro deveria lutar para que isso seja mantido", concluiu.

Fonte: Folha de S. Paulo

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