
08/10/2026
Quando se depara com notícias sobre o El Niño previsto para este ano, a professora aposentada Sandra Motta, de 57 anos, sente que "a cabeça não para de funcionar".
Ela imagina todos os cenários catastróficos que podem ocorrer e quais medidas tomar em relação a isso.
Moradora de Canoas, zona metropolitana de Porto Alegre (RS), a professora teve de sair de sua casa em 3 de maio de 2024 devido às inundações que devastaram parte do Rio Grande do Sul.
Somente em julho daquele ano ela conseguiu voltar a morar na casa, que foi tomada por água, lama e sujeira.
Por medo de uma nova enchente, a professora acabou decidindo comprar um apartamento em uma zona alta da cidade. Ela se mudou para lá há cerca de dois meses.
"É triste. Era um lugar que eu gostava tanto de morar", lembra, falando da casa.
As enchentes de 2024 no Estado estavam associadas ao El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico.
Um novo El Niño se desenvolve neste ano e deve ser um dos mais fortes da história, segundo o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, o Met Office.
O incessante pensar de Motta acarreta em cansaço e tensão, que "endurecem" seu queixo e pescoço.
"É fisioterapia que eu tenho que pagar para aliviar isso", relata.
Para ela, a necessidade de tomar medidas para se preparar para um novo evento extremo, desde comprar uma luz de emergência a trocar de endereço, gera ansiedade, mas faz parte de um "novo normal".
A ausência de políticas públicas para se preparar para futuras enchentes, bem como notícias sobre desmatamento e o fim de algumas salvaguardas ambientais alimentam a preocupação de Motta.
"Essas coisas de não ver perspectiva de o mundo melhorar bate muito forte na gente. A gente sabe o que vai acontecer e vê que nada foi feito para melhorar."
A Prefeitura de Canoas não respondeu a um pedido de posicionamento da reportagem.
Para cuidar dos sofrimentos mentais que enfrentou depois das enchentes, Motta participa de atendimentos psicológicos oferecidos pelo Projeto Recomeçar, do Hospital Moinhos de Vento, que atende vítimas da enchente de 2024.
O psiquiatra Christian Kieling, coordenador do projeto, avalia que é natural que quem tenha passado pelo evento receie viver algo parecido de novo.
Extremos climáticos podem desencadear depressão, ansiedade e, por vezes, estresse pós-traumático.
Joana Corrêa de Magalhães Narvaez, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), acrescenta que a maior frequência do fenômeno traz uma sensação generalizada de "desesperança".
No entanto, Narvaez alerta que as reações advindas da antecipação de um próximo El Niño não devem ser lidas necessariamente como sinais de transtornos psiquiátricos a serem tratados com remédios, pois podem ser respostas "funcionais" a situações como estas.
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