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A crise climática tem gênero porque o cuidado também tem

22/10/2026

Quando uma enchente fecha a escola, alguém precisa ficar com as crianças. Quando falta água, alguém reorganiza a casa inteira. Quando uma onda de calor derruba a saúde de uma pessoa idosa, alguém controla a medicação, prepara a comida, procura atendimento. Quando uma família perde a casa, alguém corre atrás de documentos, roupas, comida e de alguma sensação de normalidade.
Esse trabalho raramente entra nas planilhas de perdas climáticas. Deveria.
No Brasil, as mulheres dedicaram em média 21,3 horas por semana a cuidados de pessoas e afazeres domésticos em 2022. Entre os homens, a média foi de 11,7 horas, segundo o IBGE. Mulheres pretas ou pardas dedicaram 1,6 hora semanal a mais do que as brancas.
A diferença ajuda a entender por que falar de gênero na crise climática não é afirmar que as mulheres têm alguma vulnerabilidade natural. Um evento extremo encontra pessoas posicionadas de modo muito diferente diante do risco. O IPCC chega a essa conclusão: no capítulo dedicado à América Central e do Sul, o painel afirma, com alta confiança, que os impactos climáticos se distribuem de forma desigual entre homens e mulheres e que as mulheres mais pobres têm menor capacidade de adaptação, o que aprofunda desigualdades de gênero já existentes.
O problema, portanto, não está no gênero em si. Está na estrutura social que transforma gênero, raça, renda, deficiência e território em capacidades desiguais de escapar, reagir e reconstruir.
As enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul expuseram essa dimensão. Além da perda de moradias e infraestrutura, houve violência contra mulheres nos abrigos e sobrecarga no cuidado familiar depois do desastre. Em abril de 2026, durante o IV Congresso Internacional do Ministério Público, em Brasília, a subprocuradora-geral da República Luiza Frischeisen, coordenadora da Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPF, afirmou que nos abrigos “ocorreram situações de violência sexual” e que o Ministério Público teve de atuar também na segurança dessas pessoas.
É um efeito climático que quase não aparece nos balanços. A ponte destruída está na fotografia aérea. A rodovia interrompida entra na conta econômica. A escola fechada também pode ser contabilizada. Já as horas que alguém passa cuidando de crianças porque a escola deixou de funcionar dificilmente chegam ao relatório de danos.
O mesmo vale quando saúde, transporte, abastecimento de água ou assistência social falham. Parte do serviço que a infraestrutura pública prestava migra para dentro das casas. E, ali, não encontra uma divisão neutra do trabalho.
A análise do Geledés sobre mulheres negras, o Plano de Ação de Gênero e a Política Nacional de Cuidados parte de uma pergunta que serve a qualquer plano de adaptação: quem cuida quando a casa alaga? Dela decorre uma consequência prática, que proponho como princípio: infraestrutura de cuidados também é infraestrutura de resiliência climática.
Isso muda o que significa preparar uma cidade. Adaptação não é só canalizar córregos, conter encostas, ampliar a drenagem e instalar sistemas de alerta, medidas indispensáveis. Inclui creches, unidades de saúde, transporte acessível, assistência social, abrigos seguros, proteção contra a violência e redes comunitárias capazes de funcionar durante a emergência. Talvez este seja um dos pontos cegos mais persistentes do debate climático: tratamos a infraestrutura social como algo separado da física, quando, num desastre, uma depende da outra.
“Mulheres” não é uma categoria homogênea. Uma mulher branca de renda alta, com carro, seguro residencial e a possibilidade de deixar temporariamente uma área de risco, vive um evento extremo em condições muito diferentes das de uma mulher negra da periferia que depende do transporte público e sustenta filhos ou outros familiares. Uma rota de evacuação que serve a quem caminha pode simplesmente não servir a uma pessoa com deficiência.

A matéria na íntegra pode ser lida no CicloVivo

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