
22/10/2026
O fotógrafo Federico Veronesi presenciou uma cena comovente enquanto acompanhava uma manada de elefantes caminhando ao longo do leito de um rio seco no deserto da Namíbia, em setembro de 2025.
Ele encontrou uma fêmea carregando um filhote natimorto, com suas pernas minúsculas entrelaçadas na tromba e seu corpo flácido balançando no ar.
"Foi um momento íntimo, quase espiritual", relembra Veronesi.
"O bebê ainda estava mole e totalmente intacto. Ele ainda não havia se enrijecido. Claramente, ele havia nascido à noite ou, talvez, poucas horas antes."
À primeira vista, aquela cena triste parecia mostrar o luto de uma mãe. Mas Veronesi viria a descobrir um detalhe surpreendente naquele raro comportamento, revelando uma sensibilidade ainda mais complexa do que parecia inicialmente.
Veronesi acompanhou a manada por várias horas e fez fotos verdadeiramente marcantes. E uma delas (a imagem abaixo) ganhou o primeiro prêmio do concurso Fotógrafo da Vida Selvagem do Ano de 2026, promovido pelo Museu de História Natural de Londres.
A elefanta passou horas carregando o filhote. De vez em quando, ela se sentava para comer ou beber água, pegava o natimorto novamente e prosseguia em sua jornada pelo rio Huab, segundo Veronesi.
"Eu pensei, ´Esta é uma cena muito triste, mas precisa ser observada´", relembra o fotógrafo. "Esta foto deixa claro o quanto esses elefantes sofrem, como eles têm sentimentos complexos, que as pessoas talvez não associem aos animais."
Veronesi acabou descobrindo que o filhote natimorto que a elefanta carregava não era dela.
"Ela não é a mãe", afirma Christin Winter, diretora de programas de conservação da ONG Elephant Human Relations Aid (Auxílio às Relações entre Elefantes e Seres Humanos, EHRA), que trabalha para proteger os elefantes do deserto da Namíbia.
A fêmea, agora com 14 anos, perdeu seu filhote dois anos atrás. Desde então, ela já foi vista carregando os filhotes natimortos de outras mães em quatro ocasiões diferentes, segundo Winter. É a primeira vez que este comportamento é documentado na região, explica ela.
Para Veronesi, esta revelação "certamente agrega ainda mais profundidade sobre as emoções destas criaturas".
"O comportamento desta fêmea após a sua perda é ainda mais comovente. É como se ela tentasse se reconectar com seu próprio filhote, sem ter ainda se recuperado daquela perda, ao longo dos anos."
Existem algumas teorias que tentam explicar por que a elefanta carregou o filhote por tanto tempo. Este comportamento pode ser algum tipo de "processamento emocional", segundo Winter.
"Talvez fosse uma forma de processar a morte por ela ainda não ser capaz de se desapegar", explica ela. "Ela pode ter ficado traumatizada por perder seu filhote e, por isso, adota este comportamento sempre que algum deles morre."
Talvez ela também estivesse tentando proteger o corpo do filhote dos predadores, afirma Winter.
As fotos de Veronesi fornecem uma rápida ideia da vida dos 150 robustos elefantes do deserto da Namíbia.
Eles vivem ao longo de cinco leitos de rio do deserto e migram por longas distâncias, em busca de água e comida. Os animais se alimentam das vagens de árvores da espécie Faidherbia albida ou da grama das várzeas.
Eles não formam uma espécie separada, mas sim um ecotipo: uma população de elefantes que se adaptou ao ambiente árido aprendendo comportamentos, não com adaptações genéticas. É um fenômeno similar ao dos leões do deserto da Namíbia, que moram na Costa dos Esqueletos.
"É o seu conhecimento que realmente os torna especiais e também muito vulneráveis porque, se aquele conhecimento desaparecer, não poderá ser substituído rapidamente", explica Winter.
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