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Duas aves brasileiras estão entre as mais barulhentas do mundo, mostra estudo

01/10/2026

Duas espécies de aves brasileiras estão entre as mais barulhentas do mundo: a araponga-de-garganta-nua e a seriema. Os cantos das duas ultrapassaram 120 decibéis de pico, volume superior ao de uma motosserra ou de uma britadeira.
A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos – entre eles, o brasileiro e aluno de pós-graduação da universidade, João Menezes. O estudo foi publicado na revista científica "Evolution".
➡️Os pesquisadores mediram a amplitude do canto de 123 aves em áreas próximas a Amherst, nos Estados Unidos, e em diferentes regiões do Brasil. Dessas espécies, 113 nunca haviam tido o volume de seus cantos catalogado.
Menezes explica que se conhece pouco sobre a amplitude vocal das espécies, mas as aves brasileiras parecem ter um canto próximo ao limite de produção de som já observado.

"Podemos dizer com segurança que as arapongas (da Amazônia e da Mata Atlântica) e a seriema emitem os cantos mais altos já medidos", afirma Menezes em entrevista ao g1.

O objetivo do trabalho não era encontrar a ave mais barulhenta, mas entender quais características físicas podem determinar o volume do canto e investigar se o nível de som está relacionado ao ambiente em que a ave vive e à sua organização social.

🐦A pesquisa encontrou uma diferença de 58 decibéis entre os cantos analisados:

* Na parte mais baixa da escala estava o beija-flor, com 64 decibéis, aproximadamente o volume de uma conversa normal.
* Na outra ponta estavam o araponga-de-garganta-nua e a seriema, que ultrapassaram os 120 decibéis de pico, superior ao volume de equipamentos como uma motosserra ou uma britadeira.

Os pesquisadores explicam que os fatores que melhor explicam a diferença observada são tamanho corporal e largura da abertura do bico.
"Em geral, aves maiores e com uma abertura de bico mais larga tendem a cantar mais alto. Isso fica bem ilustrado pelas espécies com cantos mais altos que registramos: a seriema é a maior espécie na nossa amostra, enquanto as arapongas têm aberturas de bico especialmente largas para seu tamanho", analisa Menezes.
As aves mais barulhentas também apresentam músculos mais robustos, que podem permitir uma maior compressão de ar, e aberturas de bico mais largas.
Os pesquisadores fazem uma comparação com instrumentos musicais: assim como campânulas (partes estruturais em forma de sino) mais largas podem ajudar a amplificar o som de instrumentos como trompetes, bicos mais largos podem contribuir para a produção de sons mais altos.
Apesar de identificar essas características, o estudo não conseguiu estabelecer uma relação clara entre o volume do canto e a função ecológica ou evolutiva desse som.
Antes da pesquisa, os cientistas haviam levantado a hipótese de que as aves mais barulhentas seriam voadoras mais fracas, viveriam em florestas densas e praticariam poligamia.
A ideia era que um canto mais alto poderia compensar uma mobilidade limitada, ajudar a comunicação em ambientes nos quais seria mais difícil para as aves se enxergarem e permitir que chamados de acasalamento alcançassem parceiros a maiores distâncias.
Os dados, porém, não sustentaram essas hipóteses de forma ampla.
"Entre os fatores ecológicos que estudamos, nenhum explicou com clareza por que algumas espécies evoluíram cantos mais altos do que outras. Isso não quer dizer que habitat, capacidade de voo ou sistema de acasalamento nunca sejam importantes, mas sim que não parecem ser regras gerais para as aves como um todo", detalha Menezes.
Ele ainda acrescenta que a observação ajudou a entender como as estruturas físicas dos animais contribuem para os cantos mais altos, mas ainda há um longo caminho pela frente.

A matéria na íntegra pode ser lida no g1

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