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Quando fazer a coisa certa não resolve o problema

20/08/2026

Imagine uma embalagem comum. Ela começa sua história muito antes de chegar às nossas mãos. Houve extração de recursos naturais, transformação industrial, consumo de água e energia, transporte e toda uma cadeia econômica necessária para que cumprisse uma função que, muitas vezes, dura poucos minutos. Depois do consumo, torna-se resíduo.
Vamos assumir o melhor cenário dentro da lógica linear que ainda predomina: essa embalagem foi descartada corretamente, coletada e destinada a um aterro sanitário devidamente licenciado e controlado. Nenhum lixão, nenhum descarte clandestino, nenhuma imagem de resíduos boiando em rios. Tudo conforme o figurino e a responsabilidade sanitária atribuída aos municípios.
Há, porém, um detalhe que costuma desaparecer junto com o caminhão de coleta: essa conta também é nossa. Somos nós, cidadãos e consumidores, que financiamos direta ou indiretamente boa parte da estrutura pública necessária para coletar e destinar aquilo que, poucos minutos antes, fazia parte de um produto colocado no mercado e gerava valor econômico privado.
Bom, e diante de tudo isso, o problema está resolvido?
Depende de qual problema estamos falando. Do ponto de vista da destinação inadequada, certamente avançamos. Os aterros sanitários são infraestruturas necessárias e muito superiores aos lixões que o Brasil ainda luta para eliminar. Mas há uma diferença importante entre controlar as consequências de um resíduo e resolver o problema que o produziu.
A embalagem aterrada não desapareceu. Com ela enterramos matéria-prima, energia e parte do valor econômico mobilizado para produzi-la. Para colocar a próxima embalagem no mercado, precisaremos novamente de recursos, energia e capacidade produtiva. O caminhão foi embora, o resíduo saiu da nossa frente, a planilha registrou a destinação adequada, o agente público cumpriu seu papel e provavelmente ainda terá dividendos políticos sobre isso. A dinâmica da geração e destinação dos resíduos, entretanto, continua no mesmo lugar.
É justamente nesse contexto que algumas palavras que usamos quase como sinônimos começam a contar histórias diferentes.
As ciências ambientais nos ajudam a reconhecer os impactos desse percurso. A economia chama nossa atenção para as externalidades, quando parte dos custos ambientais, sociais ou econômicos de uma atividade acaba suportada por outros agentes ou pela sociedade. E o Direito acrescenta a dimensão da responsabilidade, estabelecendo deveres de prevenção, gerenciamento e reparação e reconhecendo que os custos ambientais não deveriam simplesmente ser empurrados para a coletividade.
Essa discussão está longe de ser abstrata. O Global Waste Management Outlook 2024, publicado pelo PNUMA e pela International Solid Waste Association, estimou em US$ 252 bilhões o custo direto global da gestão dos resíduos sólidos urbanos em 2020. Incorporados os custos ocultos associados à poluição, saúde e mudanças climáticas decorrentes de práticas inadequadas, a conta chega a US$ 361 bilhões.
São lentes diferentes sobre um mesmo fenômeno. E talvez seja justamente por olharmos cada uma separadamente que algumas contradições tenham se tornado tão naturais.
Uma embalagem pode cumprir todas as exigências aplicáveis à sua destinação e, ainda assim, levar consigo recursos que poderiam permanecer circulando na economia. Pode haver conformidade sem circularidade, assim como eficiência em uma etapa e desperdício quando observamos o sistema inteiro.

A matéria na íntegra pode ser lida no CicloVivo

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