
21/07/2026
Dois anos após as secas históricas na amazônia, um novo El Niño volta a ameaçar a floresta. A mata não teve tempo de se regenerar, mas, em junho, a Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) confirmou o início do fenômeno, que costuma trazer estiagem para a região norte do Brasil.
Um estudo publicado em abril deste ano na revista científica Pnas estima que 53,7% das áreas intactas da amazônia afetadas pela seca não devem se recuperar mesmo sete anos após o evento climático extremo de 2023-2024.
Esse é o tempo máximo que a floresta já levou para retornar às condições pré-seca nos últimos 30 anos. O trabalho observou o sinal de satélite de três décadas e o correlacionou com a umidade e a biomassa das plantas.
Os pesquisadores calculam que na seca de 2015, outro ano de El Niño, a floresta demorou sete anos para se recuperar. Para isso, os autores levaram em consideração se a umidade do dossel e a biomassa da floresta retornaram às suas condições de pré-seca. Em 2005, a floresta levou cinco anos e, em 2010, três anos.
Os dados do satélite publicados na Pnas indicam que as secas de 2023 e 2024 causaram uma das mais severas perdas de umidade do dossel das árvores, além de uma queda de biomassa acima da média desde 1992.
Durante o período, duas secas atingiram a floresta. A primeira provocada pelo El Niño e a segunda pelo aquecimento das águas do Atlântico Norte. A mudança climática provocada pela emissão de gases de efeito estufa altera a dinâmica da atmosfera e, como resultado, eventos climáticos se tornam mais frequentes e intensos.
De acordo com a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia Flávia Costa, a seca de 2023-2024 também foi extensa. Como resultado, além das temperaturas elevadas, a falta de chuva nas cabeceiras provocou uma redução drástica dos níveis de água nos principais rios amazônicos.
O rio Negro, por exemplo, atingiu em outubro de 2024 seu nível mais baixo em 122 anos, com medição em Manaus. O Solimões também secou, dando origem a bancos de areia, e igarapés desapareceram.
Segundo o MapBiomas, a amazônia recuperou em 2025 o nível de superfície de água anterior às secas de 2023-2024, ficando 2,6% acima da média histórica. As chuvas foram propiciadas pela La Niña —que corresponde ao resfriamento acima da média das águas do oceano Pacífico equatorial, enquanto o El Niño é o seu oposto.
Mas o agrometeorologista Gabriel Brito Costa, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará, destaca que a recuperação do nível da superfície do rio não significa que a floresta retornou aos padrões anteriores de funcionalidade. Para isso, é preciso analisar também outras atividades, como o patamar de evapotranspiração e troca de carbono realizada pelas plantas.
Durante o século 20, houve dez secas, sete delas associadas ao El Niño, segundo levantamento publicado na revista International Journal of Climatology. Nos primeiros 25 anos deste século, além de 2023 e de 2024, houve secas em 2005, 2010 e 2015 na região, sendo que a de 2005 foi provocada por outro fenômeno —o aquecimento das águas tropicais do Atlântico Norte, que também teve forte influência na seca de 2010. Enquanto o El Niño afeta a amazônia durante a temporada de chuvas, o aquecimento no Atlântico Norte traz seus impactos no período de seca.
O resultado da frequência maior de extremos climáticos é um tempo mais curto para que os organismos se recuperem.
"A tendência é que a floresta vai perdendo biomassa ao longo do tempo, reduzindo a sua produtividade, perdendo a capacidade de reciclar a água e de manter as características microclimáticas original dessa floresta", explica o pesquisador Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Leia a matéria completa acessando a Folha de S. Paulo
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