
13/07/2026
Em 2024, o Brasil registrou a maior área queimada por incêndios florestais desde 2012, segundo dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2025, a extensão atingida pelo fogo caiu significativamente, chegando ao terceiro menor patamar dessa série histórica. Dois fatores ajudam a explicar o resultado: o clima favorável e o avanço da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF).
Em 2026, o país volta a enfrentar um cenário de maior risco devido ao El Niño, fenômeno que contribuiu para o recorde registrado em 2024. Isso pode representar um teste para os avanços da política nacional e para a capacidade de prevenção e combate aos incêndios florestais. Embora sua força ainda seja incerta, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa) dos Estados Unidos previu, em junho, 63% de probabilidade de o evento atingir a categoria muito forte.
"Estamos preparados para uma situação muito complexa. Torcemos para que ela não ocorra. Mas temos a convicção de que tudo o que fizemos a partir de 2024 gerou aprendizados e ações", afirmou João Paulo Sotero, secretário-substituto e diretor do Departamento de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios (DPCD) do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Em julho de 2024, durante incêndios florestais que chamavam a atenção do Brasil, foi aprovada a PNMIF, considerada um novo paradigma por romper com a lógica da política de fogo zero. Desde então, também avançaram ações de prevenção, como a ampliação do uso de queimas prescritas, o aumento do contingente de brigadistas contratados e o reforço da estrutura de combate.
"No entanto, isso não significa que teremos necessariamente menos incêndios", analisou Lívia Carvalho Moura, doutora em ecologia pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora associada do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). A especialista reconhece importantes avanços, mas aponta desafios, como a falta de implementação do Manejo Integrado do Fogo (MIF) em muitos estados, municípios e no setor privado, além de incertezas orçamentárias.
"Hoje enfrentamos um contexto mais desafiador, marcado por mudanças climáticas, eventos extremos mais frequentes, expansão de áreas degradadas e pelo uso inadequado do fogo em atividades humanas e conflitos territoriais. Esses fatores aumentam o risco de ocorrência, intensidade e severidade dos incêndios", afirmou Moura.
Se, no Sul do Brasil, o El Niño aumenta a chance de grandes volumes de chuvas, no restante do país o sinal costuma se inverter. "Os efeitos conhecidos são aumento das temperaturas na região central, ou seja, a possibilidade de um aumento de ondas de calor. E seca na região Norte e Nordeste. Isso contribui para condicionar a atmosfera para uma situação de maior exposição ao risco de fogo", explicou o pesquisador Christopher Cunningham.
Cunningham é líder do Grupo de Estudos de Fogo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Ele ressalta que cada El Niño tem uma espécie de assinatura, ou seja, os efeitos que causa. Isso ficou claro em um estudo publicado em maio. Os pesquisadores notaram que nos anos de 2015/2016 e 2023/2024 o fenômeno passou a favorecer condições de maior seca e calor nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, o que não era tão comum.
A previsão de probabilidade de fogo do Cemaden para os meses de julho, agosto e setembro põe 1.863 municípios em atenção, 615 em alerta e 106 em alerta alto. Os níveis mais elevados de risco concentram-se principalmente no Centro-Oeste e no arco sul da Amazônia, abrangendo áreas de Mato Grosso, Rondônia, Acre, sul do Amazonas e sul do Pará, além de porções do Tocantins.
Esses locais correspondem em grande parte, segundo o Cemaden, às regiões de transição entre os biomas amazônia e cerrado, onde a combinação entre a consolidação da estação seca, a redução da umidade da vegetação e a intensa atividade agropecuária favorece a ocorrência e a propagação de incêndios. O norte do cerrado e o matopiba, que abrange áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, também apresentam extensas áreas em alerta e atenção.
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