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Comunidades tradicionais do Bico do Papagaio alertam para recuo dos rios Tocantins e Araguaia

18/12/2025

Em meio a debates sobre a real dimensão das mudanças climáticas e conferências como a COP30 para discuti-la, comunidades tradicionais do Bico do Papagaio, no norte do Tocantins, vivenciam diretamente suas consequências.
Na ponta de um triângulo com Maranhão e Pará, moradores e pesquisadores relatam que o nível dos rios Tocantins e Araguaia tem diminuído, as árvores são cada vez mais escassas, os incêndios florestais, mais frequentes e rápidos, as chuvas, atípicas, e o calor, mais extenuante.
"Contar a história do rio Tocantins dá vontade de chorar", diz o líder quilombola Antônio Pereira de Jesus, 64, o Piolho.
No quintal da sua casa no quilombo Carrapiché, em Esperantina (TO), ele observa o rio há 30 anos. "De primeiro, a gente pegava barcos pesados e ia até Marabá [PA]. Hoje, tem lugar que a gente passa levando a rabeta [barco pequeno movido a motor] nos braços", diz.
Piolho associa a diminuição do volume de água a queimadas que se multiplicaram nas margens em 2023. Embaixo de uma árvore, o quilombola aponta para ao menos três ilhas que não existiam quando chegou em Carrapiché. A partir de uma delas, é possível atravessar o rio de uma margem a outra a pé.
Sete famílias moram no quilombo e dividem dez alqueires de terra —outros 40, diz a comunidade, foram invadidos por grileiros. Os quilombolas se alimentam de feijão, banana e mandioca que plantam, e dos peixes que pescam. Para não desmatar ainda mais e aumentar o calor que enfrentam, diz Piolho, pararam de plantar arroz.
"Hoje, quando o sol está bem quente, a água fica morna de tarde", conta.
No dia que a reportagem visitou Carrapiché, fazia 37°C. "Do jeito que estou vendo aí, vai acabar a floresta, os peixes e as águas vão secar. O impacto está muito grande. A maior preocupação da gente é preservar."
A situação não é diferente no rio Araguaia. Um pouco antes do encontro dos dois rios, no povoado de Pedra Grande, Rosimeire Rodrigues, 59, mostra uma antiga estrutura de ferro usada para prender a balsa que faz travessia para o Pará. Faz cerca de 20 anos que a água não chega mais ali, diz.
O rio Araguaia tem, historicamente, períodos de cheia e seca. Segundo a pescadora aposentada, porém, as cheias têm durado menos tempo, e o volume atingido é cada vez menor. Por outro lado, diz, os períodos de baixa estão mais longos.
Um relatório da Ambiental Media que analisou 51 anos de dados da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), publicado em junho, confirma que houve redução no volume dos rios.
A bacia do Araguaia teve uma queda de 10% em sua vazão mínima, com secas mais severas, conforme o estudo. Já a bacia do Tocantins perdeu 35% da disponibilidade hídrica, o equivalente a 12 piscinas olímpicas por minuto.
Para medir mais a fundo essas mudanças, pesquisadores da UFNT (Universidade Federal do Norte do Tocantins) fizeram uma parceria com a Universidade Estadual de Tyumen, da Rússia, prevendo a instalação de uma Estação de Pesquisa e Monitoramento de Mudanças Climáticas no Bico do Papagaio.
A iniciativa faz parte de um acordo de cooperação entre os governos brasileiro e russo, inspirado em estrutura de estudos ambientais que funciona na Sibéria.
O vice-reitor da UFNT, Nataniel Araújo, afirma que o norte do Tocantins carece de dados científicos sobre o clima. O estado é o mais jovem do Brasil, reconhecido em 1988, e a UFNT é a universidade federal mais nova do país, fundada há seis anos.

A reportagem na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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