
01/02/2022
Os discursos dos principais líderes na COP26 não animaram corações e mentes daqueles preocupados em impedir a crise do clima no mundo, pelo menos do ponto de vista da diretora da ONG Oxfam França, Cécile Duflot.
Para ela, que foi três vezes eleita deputada e líder do Partido Verde francês e ministra de Habitação e Igualdade de Territórios no mandato de François Hollande (2012-17), são os atos dos governantes que devem ditar o que vai poder ser feito nos próximos anos para reverter o aquecimento global.
"As ações tanto no território europeu quanto as que temos perante nossas relações comerciais com outros países são fundamentais, mas é preciso primeiro dar o exemplo, e a União Europeia não está fazendo isso direito", diz.
Recentemente, uma ação conhecida como caso do século, organizada pela Oxfam França, foi julgada e condenou o estado francês a reduzir as emissões de gases de efeito estufa até 2030 sob pena de multa, inclusive aquelas causadas em governos anteriores, revertendo a inação climática histórica daquele país.
Cécile Duflot conversou com a Folha de sua casa em Paris, na França, sobre redução do aquecimento global, consequências da crise do clima nas populações mais vulneráveis e o futuro do Brasil.
Recentemente, a Oxfam França conseguiu uma vitória histórica para o combate à crise do clima na França. Como foi essa batalha e quais as implicações práticas dessa vitória?
Há três anos lançamos uma campanha em conjunto com outras ONGs para tentar conscientizar o governo a agir à altura da urgência climática. Ao perceber que a conscientização somente não ia trazer efeito, iniciamos o processo judicial, nos perguntando durante todo o tempo se esta era de fato a melhor forma de ação, que não havia chance de ganhar e em menos de dois meses conseguimos colher 2,3 milhões de assinaturas em apoio à campanha e ganhamos com ampla vantagem.
Agora, não somente o estado francês será obrigado a reparar as emissões históricas de gases estufa, mas também os governantes futuros devem agir segundo o Acordo de Paris. É uma obrigação que não recai somente no governo atual, mas na França como república. O próximo passo será, no final de 2022, aumentar o orçamento para redução de emissões de gases de efeito estufa, permitindo assim um controle melhor das mudanças climáticas.
A senhora acredita que a União Europeia, pós COP26, vai restringir suas relações com países que não cumpriram o Acordo de Paris como o Brasil, por exemplo, para atingir os objetivos de redução de gases de efeito estufa?
Não estamos tão otimistas assim porque a própria União Europeia não está em lugar favorável para ditar as regras. Há muito discurso em torno do clima, mas a única coisa que importa para conter o avanço da crise são ações, estas, tanto no território europeu quanto as que temos perante nossas relações comerciais ou diplomáticas com outros países, são fundamentais. É preciso, contudo, dar o exemplo, e a União Europeia não está fazendo isso direito, ela não cumpriu as obrigações do Acordo de Paris.
A crise climática é uma questão que deve ser enfrentada apenas pelo poder público ou deve haver um diálogo também com as empresas?
O diálogo é fundamental e a Oxfam França trabalha nesse sentido, fazendo uma ponte com o setor empresarial para que entendam que reduzir as emissões hoje não é só um discurso ecológico, é uma questão central para as nossas vidas. E não só as empresas, os bancos também, porque os principais bancos mundiais estão entre os grandes emissores: três dos maiores bancos franceses emitem gases estufa oito vezes mais do que o setor industrial francês como um todo. Há um trabalho essencial com as empresas, com o setor financeiro e com a sociedade civil.
A entrevista completa pode ser lida na Folha de S. Paulo
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