
25/01/2022
No início da pandemia, o mecânico de aviões Flavio Carlos Barbosa, de 61 anos, foi afastado do trabalho por ser do grupo de risco. Nas poucas vezes em que saía do apartamento onde mora, no Humaitá, passou a observar que a região estava “triste e vazia”. Ele decidiu, então, contribuir de alguma forma com a sociedade e começou a usar o tempo livre que ganhou para levar beleza e alegria a ruas da cidade. Com recursos próprios e sozinho, ele revitaliza canteiros com jardins, praças, bancos e o que mais encontrar pelo caminho.
Já perdeu as contas dos locais contemplados. Um deles é o Largo dos Leões, em frente ao prédio onde reside. O lugar, oficialmente adotado por Barbosa junto à prefeitura, foi todo reformado. O morador pintou os brinquedos, consertou bancos, plantou pés de seriguela e jambo, criou um canteiro e ainda esculpiu um cão no toco que restou de uma árvore e que foi batizado com o nome do seu cachorro: Bruce.
A praça do Largo dos Leões ganhou também uma escultura de leão com pneus e uma biruta costurada por Barbosa para indicar a direção do vento. Ele criou ainda peças afetivas para o local, como um foguete feito de PVC, cata-ventos, casinhas de madeira que abrigam pássaros e micos e até uma casinha de acrílico com móveis em miniatura. Todo o material utilizado é reciclado e passa pelas mãos habilidosas do mecânico de aviões que também é pedagogo e se transforma em pintor, costureiro, marceneiro e ferreiro. “Tudo para alegrar a molecada”, como ele gosta de dizer.
— Tenho um carinho por tudo que faço. Mas a casinha de acrílico com os móveis em miniatura, o pé de jambo e a escultura do Brucinho são as meninas dos meus olhos. Essa praça estava completamente abandonada, só era usada por usuários de drogas. Hoje ela voltou a receber muitas crianças, famílias e até festas. Essa é a maior recompensa — diz.
Outras praças repaginadas por Barbosa foram a Corumbá, no Morro Dona Marta, em Botafogo; e a da Babilônia, no Leme. Esta última ganhou brinquedos.
— Na Corumbá eu consertei e pintei os brinquedos e o que estava precisando no início da pandemia, e no último Natal eu a revitalizei novamente. A da Babilônia deu bem mais trabalho, porque ela estava muito largada e não tinha brinquedos, nada. Se eu pudesse, reformava todas as praças da cidade. Acho um barato a transformação de um lugar sucateado em um espaço alegre e colorido. Tem muita gente que acha que isso é com a prefeitura, mas eu acho que se podemos fazer, por que não? Quero que a prefeitura se preocupe com problemas mais sérios, como saneamento básico em lugares que precisam de verdade — diz.
Barbosa gostou tanto do novo ofício que não quer mais voltar a ser mecânico de aviões. Agora ele se dedica a abrir, no Largo dos Leões, uma banca de jornal, que na verdade abrigará ferramentas para criar suas obras. A ideia é continuar presenteando locais públicos com melhorias e objetos afetivos, mas também atender a uma extensa lista de pedidos de moradores que surgiu depois que eles conheceram o talento do vizinho.
— Estava ficando difícil fazer tudo em casa. Decidi alugar a banca, ficar mais perto das pessoas. Passei 35 anos trabalhando de madrugada, não conhecia meus vizinhos, não sabia o que acontecia em frente à minha casa. As praças são minha prioridade, meu lazer, mas também vou fazer dessa banca um negócio, já que a todo momento me pedem uma coisa, e eu também preciso, até para continuar conseguindo reformar as praças. Não quero mais consertar avião, quero fazer um avião que possa voar ou o que a imaginação permitir — empolgase Barbosa, adiantando que sua próxima criação serão brinquedos pedagógicos para crianças autistas.
Fonte: O Globo
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