
11/01/2022
Localizado na foz do Amazonas, o arquipélago do Bailique (Amapá) tem nos imponentes açaizais nativos a sua principal fonte de renda. Mas a elevação do nível do oceano Atlântico sobre o rio mais volumoso do mundo está salgando o fruto roxo e ameaça a própria permanência dos cerca de 14 mil moradores.
A investida do mar sobre o rio sempre ocorreu na região, onde ganhou o nome local de maré lançante ou lanço. O problema é que vem ocorrendo com força crescente e por mais tempo. Neste ano, pela primeira vez, todas as 58 comunidades, espalhadas por oito ilhas, foram atingidas, levando a prefeitura de Macapá a decretar situação de emergência.
"Sempre houve isso, mas não adentrava no arquipélago, ficava só nas comunidades da costa. No ano passado, pegou um terço do Bailique. Neste ano, pegou o arquipélago todo", afirma o presidente da cooperativa de produtores de açaí Amazonbai, Amiraldo de Lima Picanço, 35.
Segundo moradores, o Amazonas começou a ficar salgado a partir de agosto. Em 14 de outubro, o prefeito de Macapá, Dr. Furlan (Cidadania), decretou situação de emergência no distrito para agilizar a distribuição de água e de cestas básicas, levadas de barco da cidade, a cerca de 180 km, uma viagem de 12h.
O impacto também avança sobre os açaizais. Segundo Picanço, que é engenheiro florestal, frutos colhidos mais próximos da costa salgaram há mais de dez anos, e o fenômeno está se intensificando. Um dos 132 produtores da Amazonbai já registrou o problema em parte do seu açaí.
"A água do mar está invadindo, e o açaí vai sofrer alterações. A gente sabe que o açaí consome muita água. Tem lugares, para a banda do norte onde o açaí é totalmente salgado", afirma o produtor cooperado Pedro Barbosa, 42.
A ameaça ocorre em um momento em que a Amazonbai atravessa uma fase de consolidação e expansão. Após anos de exploração predatória do palmito do açaí, os produtores se organizaram e passaram para a extração do fruto por meio do manejo de mínimo impacto. A floresta continua de pé, e a intervenção principal é a limpeza da área, por meio de poda.
A cooperativa foi a primeira organização do país a ter a certificação FSC (Conselho de Manejo Florestal, na sigla em inglês) de serviços ecossistêmicos para conservação dos estoques de carbono florestal e da diversidade de espécies.
Ao todo, são 2.972 hectares de açaizais certificados pela entidade internacional, incluindo o selo de cadeia de custódia.
Em outra conquista dos cooperados, a Amazonbai abriu, em 10 de dezembro, uma agroindústria em Macapá para beneficiar parte da produção e que também serve de entreposto, tirando o poder de barganha dos atravessadores.
A despeito das boas práticas e do bom momento econômico do açaí, os moradores sofrem com a estrutura precária. As casas dependem de energia de geradores movidos a gasolina, com seu preço cada vez mais proibitivo. Não há sistema de esgoto adequado. O hospital mais próximo fica em Macapá.
Com relação à crise hídrica, os ribeirinhos reclamam que, em todos estes meses, cada família recebeu apenas uma única remessa de 15 pacotes de água mineral, que somam 135 litros. Eles também afirmam que a água trazida em tanques de barcos e distribuída pelo governo estadual, liderado por Waldez Góes é ferrosa e de má qualidade.
Leia a matéria na íntegra na Folha de S. Paulo
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