
11/01/2022
O que faz o esqueleto de uma Arca de Noé no alto de uma colina com vista para um braço de oceano Atlântico, no oeste escocês? "Enquanto os países discutem a crise do clima, quis lembrar que os mares estão subindo e temos que estar todos no mesmo barco para salvar o planeta", diz seu construtor, Daniel Blair.
Para erguer o barco, de quase 30 metros de comprimento e 5 de altura, Blair usou madeira que tirou de um outro projeto que concebeu há 25 anos: uma floresta comunitária, cercada de pequenas propriedades em que jovens famílias reconstroem as matas originais e repovoam cidades esvaziadas pelo envelhecimento e o êxodo rural.
Numa quarta-feira de novembro, enquanto a conferência climática COP26 acontecia em Glasgow (70 km a oeste dali em linha reta, mas a 130 km de distância pelas estradas que margeiam os "lochs" da região), o construtor escocês recebeu na arca líderes indígenas, convidados a contar como preservam suas matas.
Vieram também conhecer a Floresta Comunitária de Kilfinan, uma entre dezenas de iniciativas que aproveitaram uma reforma nas leis locais de posse de terra para mudar a paisagem e a dinâmica socioeconômica da Escócia, um dos países de maior concentração fundiária do mundo.
Uma fração minúscula da população escocesa, 0,025%, detém 67% das áreas rurais.
Tamanha desigualdade foi produzida pela expulsão forçada de camponeses no final do século 18, "quando a elite entendeu que teria mais lucro com ovelhas e cervos que com pessoas", diz Calum MacLeod, diretor de políticas públicas da Community Land Scotland, que assessora mais de cem entidades de posse comunitária no país.
A expulsão, além de forçar a emigração de escoceses para a Austrália, os Estados Unidos e o Canadá, levou também à destruição das florestas originais —formadas por carvalhos, bétulas, salgueiros e freixos— no lugar das quais surgiram pastagens ou grandes plantações comerciais de pinheiros.
Quando Blair chegou à região de Tighnabruaich, onde a Kilfinan foi instalada, "o que havia era apenas uma enorme mancha escura de coníferas", conta ele, vestido de gorro, botas, jaqueta de frio e kilt (saiote usado pelos homens escoceses).
A falta de diversidade de espécies e os ciclos das florestas comerciais, em que as árvores são cortadas a cada 30 ou 40 anos, empobreceu o solo e a vida selvagem, afastando mamíferos, répteis, pássaros e insetos.
"O vilarejo também estava morrendo; os jovens o tinham abandonado", diz Blair, o que o levou a conceber uma "ecovila intencional", na fronteira da pequena cidade. "Assim, a ecovila se beneficiaria de ter uma escola, um mercado, um pub e um correio, e Tighnabruaich ganharia novos moradores, jovens famílias, crianças.
A oportunidade de mudança veio no final da década passada, quando a legislação passou a incentivar a mudança no uso das terras, dando prioridade de compra a comunidades, e mais garantias a arrendatários, chamados de "crofters", também para áreas florestais.
A segurança gerada pela reforma legal provocou duas ondas de "crofters", diz Gordon Gray Stephens, fundador da Native Woods, que assessora a reconstrução de florestas nativas na Kilfinan.
Depois de uma primeira onda de agricultores locais, vieram famílias ou jovens de diversas regiões do país, muitos deles de formação urbana, à procura de um modo de vida alternativo que ajude a combater a crise climática.
Os arrendatários precisam manter uma cobertura florestal, mas podem também formar pomares, praticar agricultura e pecuária integrada à silvicultura, cultivar hortas ou montar estufas de flores e viveiros de mudas.
Em 2010, os moradores da paróquia de Kilfinan compraram uma floresta comercial, ampliada em 2015 com outra área de coníferas adquirida do governo. No total, as terras em nome da comunidade local chegam agora a 561 hectares (o equivalente a quatro parques Ibirapuera).
Na mesma época, em 2010, surgiu a Community Land Scotland, para assessorar a criação de propriedades conjuntas. Onze anos depois, as áreas comunitárias ocupam na Escócia mais de 200 mil hectares (5 vezes a baía da Guanabara), onde vivem 25 mil pessoas.
Saiba mais terminando de ler a matéria na Folha de S. Paulo
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