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Combustível, pistas clandestinas, armas e rádios: como funciona logística do garimpo na terra yanomami

06/01/2022

Documentos obtidos pela BBC News Brasil a partir de investigações e operações conduzidas por órgãos federais mostram que a "espinha dorsal" da estrutura logística dos garimpos ilegais na Terra Indígena Yanomami é formada por um esquema de desvio de combustível de aviação, centenas de pistas de pouso clandestinas, armas, rádios comunicadores e internet via satélite. Nos últimos meses, agentes federais destruíram pistas, aviões e apreenderam armas e equipamentos de rádio usados pelos garimpeiros que ameaçam a sobrevivência de milhares de indígenas.
A terra yanomami foi homologada em 1992 e é a maior reserva indígena do Brasil —com 94 mil quilômetros quadrados. A estimativa é de que ela abrigue 27 mil indígenas. A região é cobiçada por garimpeiros de todo o país, desde os anos 1980, em busca de minérios como ouro e cassiterita, usada na fabricação do estanho. As estimativas do governo são de que haja entre 3.000 e 3.500 garimpeiros ilegais na região. Entidades que atuam na defesa dos direitos indígenas afirmam que esse número pode chegar a 20 mil.
Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) indicam que o desmatamento na terra indígena yanomami aumentou 516% no período entre 2019 e 2020 na comparação com o período anterior, entre 2017 e 2018. Nos últimos dois anos, foram desmatados 39,1 km², o equivalente a 3,9 mil campos de futebol. No período anterior, o desmatamento foi de 6,34 km².
Para chegar à região onde estão os garimpos, os dois principais meios são os rios ou os céus. Garimpeiros desafiam as corredeiras dos rios que cortam a região para chegar às áreas exploradas irregularmente.
Normalmente, esse transporte é feito em lanchas de alumínio rudimentares chamadas de "voadeiras". Nessas embarcações são transportadas pessoas, alimentos e equipamentos usados na extração do ouro.
Além das voadeiras, os garimpeiros também usam pequenas estradas vicinais e uma intrincada malha aérea.
Na sua maior parte, ela é composta por voos e pistas de pouso clandestinos que transportam pessoas e suprimentos, mas que também é utilizada para escoar a produção de ouro ilegal para fora dos garimpos.
O ciclo de ações contra o garimpo ilegal na região foi batizado de Operação Xapiri. Ela é resultado de um processo movido pelo MPF (Ministério Público Federal) em Roraima contra o garimpo ilegal na região e envolve órgãos como o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), a ANP (Agência Nacional do Petróleo), a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Polícia Federal e MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública).
Diante da sua importância estratégica, os agentes começaram a atuar para paralisar a estrutura aérea dos garimpos. Desde o início das investigações sobre a malha aérea clandestina que dá apoio aos garimpos na região, um dos principais "mistérios" era descobrir a origem do combustível de aviação que alimentava essa frota.
Os agentes, então, cruzaram informações contidas em notas fiscais e outros documentos e chegaram à filial de Boa Vista da Pioneiro Combustíveis, uma das maiores distribuidoras de combustível de aviação do Brasil, com 24 unidades nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.
A empresa é apontada como a principal fornecedora de combustível de aviação para a estrutura aérea que dá suporte ao garimpo ilegal na terra indígena yanomami.

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