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Passarinhos se aproximaram dos cariocas durante a pandemia e construíram ninhos em casas no Rio

04/01/2022

Uma garrafa pet cortada, um vaso de plantas sem uso, uma luminária esquecida. A vida precisa de pouco para chegar. Basta que lhe deem chance. E no Rio chega voando, cantando, com a delicadeza dos pássaros que perderam o medo das pessoas e constroem ninhos urbanos sustentados por garrafas, vasos, caixas de ar condicionado e o que mais houver.
Metrópole das aves, com 520 espécies registradas, o Rio de Janeiro coleciona incontáveis casos de ninhos urbanos, prova que a conexão entre pessoas e animais floresce, mesmo em tempos sombrios para o ambiente e ainda sob o julgo da pandemia de Covid-19.
Biólogos e cariocas amantes das aves acreditam que o isolamento social dos primeiros meses da pandemia acabou por aumentar o número de aves que se sentem à vontade na cidade. O isolamento enfraqueceu, mas muitos pássaros perderam o medo e mantiveram o gosto por compartilhar suas vidas com os humanos, dizem especialistas.
— É maravilhoso ver a conexão entre pessoas e animais, vidas em harmonia. Os ninhos urbanos são um belo símbolo de integração da cidade à floresta. O Rio tem imenso potencial e não apenas nas matas. Mas também em pequenos parques e praças, ruas arborizadas — afirma Henrique Rajão, professor de Biologia da PUC-Rio, um dos autores do guia de aves do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
A casa do artista plástico Smael Vagner, no Jardim Botânico, tem varanda onde canta o sabiá. Não apenas um, mas uma família inteira, que até a semana passada vivia no ninho tecido sobre um vaso de plantas sem uso.
Os sabiás estão entre os maiores construtores de ninhos urbanos, diz Rajão. Muitas das 520 espécies da cidade são raras ou fazem seus ninhos na mata ou nas ilhas oceânicas. Mas há um número considerável daquelas que resolveram criar a família junto do ser humano.
Entre as mais comuns estão a onipresente rolinha-caldo-de-feijão, o sanhaço-do-barranco, o sanhaço-do coqueiro, o sabiá-laranjeira, o sabiá-barranco, a cambaxirra, o gibão-de-couro, o bem-te-vi-rajado, a tiriba, a andorinha-pequena-de-casa, o bacurau-da-telha e o tico-tico.
A primavera se despede, mas o período de reprodução das aves na Mata Atlântica é mais generoso do que apenas uma estação. Segundo Rajão, vai normalmente de junho até fevereiro. E algumas aves, como as rolinhas, podem se reproduzir o ano todo.
Na Rua São Clemente, em Botafogo, uma rolinha montou residência dentro de uma garrafa pet cortada que serve de vaso de plantas numa varanda de condomínio. Terminou seu ninho em meio às flores e passa os dias ali à espera da eclosão de seu ovinho. Perto dali, na Voluntários da Pátria, uma cambaxirra fez de casa a luminária de uma varanda térrea.
E foi num vaso esquecido em um canto da varanda da casa de Smael que uma mãe sabiá-laranjeira encontrou um lugar para tecer seu ninho. Nasceram três filhotes no início de dezembro. Todos já se foram. Os dois maiores bateram asas e voaram em sua estreia alada na semana passada.
O menorzinho ficou mais um dia aos cuidados da mãe. Havia caído do ninho quando os irmãos decolaram e Smael temeu que morresse. Mas o sabiazinho perseverou. Voou até uma bicicleta. Smael o resgatou e o colocou no ninho. Mas, em algum momento do dia seguinte, ele bateu as asas e voou. A mãe sabiá também se foi.
Quando a família sabiá partiu, Smael se viu dividido.
— Fiquei feliz por eles, mas triste porque amava tê-los como companhia — conta Smael, que fez até uma série especial chamada “Pequenos Anjos”, inspirada em seus vizinhos emplumados.
Mas nem de longe Smael ficou sozinho. A casa vive envolta em permanente cantoria de cambaxirras, mais sabiás e outros tantos passarinhos.
Um dos construtores de ninhos urbanos mais comuns é o sanhaço-do-coqueiro. Rajão diz que esse passarinho verde adora fazer ninhos em caixa de ar condicionado. Basta um espacinho para este sanhaço, que mede 17 cm e pesa cerca de 30 gramas, se sentir literalmente em casa.
Outro com particular predileção pelos buracos de instalação de ar condicionado é o bem-te-vi-rajado. Mais discretas, as andorinhas gostam dos espaços estreitos entre os prédios, tubulações, muros de contenção. O tico-tico procura muros cobertos por hera para construir e esconder seu ninho.
Já o sabiá-barranco gosta de uma boa varanda, seja de casa ou de apartamento. Mas fica feliz se encontrar um cantinho de garagem. O importante é ter um teto, uma proteção contra vento, chuva e predadores. E estes são muitos, mesmo na cidade. O sabiá precisa proteger ninho, ovos e filhotes do ataque de gaviões, falcões e tucanos.
— O sabiá-barranco adora o Rio. Está muito bem aqui, sai da floresta e voa pelas ruas arborizadas do entorno dos maciços da Tijuca e da Pedra Branca — diz Rajão.
As aves retribuem o abrigo e a proteção e nos defendem. Elas prestam um importante papel no controle de insetos, explica o ornitólogo, pois todas as aves comem insetos.
— Até mesmo o beija-flor come insetos e precisa caçá-los para dar aos filhotes, que precisam de proteína. As aves nos mostram que a relação entre seres humanos e animais pode ser harmoniosa — frisa Rajão.
Os pássaros também oferecem companhia. O designer gráfico Sérgio de Carvalho Filgueiras mora com a mulher, a filha e dois gatos num apartamento na Rua Maria Angélica, no Jardim Botânico, e diz que as aves fizeram sua vida melhor durante o auge da pandemia em 2020.
— As aves se tornaram minhas companheiras desde março de 2020, quando começaram as medidas de distanciamento. Nós respeitamos muito o isolamento e realmente não saíamos para nada. Passei a ficar muito tempo na janela, a observar com mais atenção — conta Filgueiras.
Ele diz que as aves foram se tornando mais confiantes à medida que o burburinho da rua diminuía. Tucanos começaram a aparecer a apenas um metro da janela e a fazer ninho perto.
— E eu, que sempre gostei de fotografia, comecei a registrar a bicharada — diz.
Filgueiras criou um projeto de registro de fauna urbana, e posta seus flagrantes no Instagram. Calcula que já captou imagens de mais de 100 espécies e fez cerca de 40 mil fotos, tudo em casa ou nos vizinhos.
— As aves foram se acostumando com a gente, não se importam nem com os gatos. O ano passado foi imbatível na presença de bichos, mas mesmo com a volta do movimento da rua deste ano, elas continuam a vir. Moro aqui há 16 anos e asseguro que antes da pandemia não era assim. Agora, fico com a máquina ao meu lado o tempo todo — enfatiza Filgueiras.
Mesmo com tamanha intimidade com os vizinhos emplumados, ele se admirou — e muito — com o dia em que um sanhaço adentrou sua casa, subiu na sua cabeça e não partiu. Ficou por pelo menos quatro horas. Pousou no celular, se deixou fotografar e se empoleirou no ombro da mulher de Filgueiras.
— Foi mágico. Dava para ver que ainda era bem jovem devido à plumagem do pescoço. Estava confiante, não mostrava medo nem dos gatos — diz ele, e acrescenta que a visita do sanhaço foi a mais longa, mas o apartamento já recebeu cambaxirras e beija-flores e tem ninho de bem-te-vi no ar condicionado.
Da janela, Filgueiras acompanha alegrias e agruras das aves que fizeram ninhos nos telhados da vizinhança e até nas calçadas. Foi num canto de uma delas que um sabiá-barranco decidiu criar os filhotes.
Cariocas como Filgueiras dão vida à sabedoria de Riobaldo, o protagonista de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa: “Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação.”
— A pandemia nos ensinou a prestar mais atenção à nossa volta e a valorizar vida. Estamos mais atentos e as aves, mais confiantes. Um ninho é um presente — diz o designer gráfico.

Fonte: O Globo

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