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Planeta não será destruído rápido, como no filme com Leonardo DiCaprio, mas aos poucos

14/12/2021

A convite de Marcelo Lima, um entusiasta dos cinemas de rua que teve a coragem de, em plena pandemia, reabrir o antigo Cinearte, no Conjunto Nacional, reconfigurado como Cine Marquise, fui assistir à estreia nos cinemas de "Não Olhe para Cima", uma sátira escrita e dirigida por Adam McKay, que será lançado na plataforma de streming da Netflix na véspera do Natal.
O roteiro não é lá grande coisa, mas vale pela mensagem que passa para o grande público, mostrando em tom dramático e divertido como o negacionismo científico e a promiscuidade entre o poder público, e o setor privado podem afetar o futuro do planeta.
Uma doutoranda de astronomia, interpretada por Jennifer Laurence, ao monitorar supernovas, visualiza a cauda de um cometa gigante, com cem quilômetros de diâmetro. Seu orientador, um astrônomo estrelado por Leonardo DiCaprio, descobre que o cometa estava em rota de colisão com a Terra.
Se nada fosse feito, em seis meses ele se chocaria com o oceano Pacífico, provocando tsunamis de 1,5 quilômetro de altura, terremotos de 10 a 11 graus na escala Richter e a destruição completa da vida no planeta. Há 66 milhões de anos, um asteroide colidiu com o planeta, extinguindo os dinossauros e muitos outros seres vivos.
Ficção científica de gênero catástrofe, entre uma sátira e uma comédia, o filme se utiliza de uma ocorrência praticamente impossível de acontecer (segundo Amy Mainzer, da Nasa, um fenômeno com esse só acontece uma vez a cada 100 milhões de anos) para alertar sobre o descaso em relação à emergência climática e outros desastres ambientais.
No filme, apesar de a descoberta ter sido revisada e confirmada por outros cientistas, inclusive pelo coordenador de defesa planetária da Nasa, a presidenta dos EUA, Meryl Streep, não dá grande importância para a possível catástrofe, como alguns presidentes fizeram em relação à Covid. Afinal, como disse o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, todos em algum dia vão morrer!
Na imprensa, a descoberta é tratada com descrédito, com jornalistas duvidando da gravidade da situação. O público prefere amenidades de celebridade a acreditar que a Terra poderia ser destruída em seis meses.
Mas a presidenta, ao perceber que uma ação midiática poderia melhorar sua fraca popularidade, resolve agir. Monta uma megaoperação para desviar a rota do cometa, usando foguetes e astronautas, solução recomendada pelos cientistas.
Quando a operação começa, o CEO de uma grande empresa privada de tecnologia e celulares, um dos homens mais ricos do mundo, convence a presidenta a interrompê-la, pois descobre que o cometa tem minérios muito valiosos. Propõe desintegrá-lo quando ele se aproximar da Terra, para se apropriar de suas riquezas.
A proposta, desenvolvida pela empresa com o apoio de uns poucos cientistas, não é revisada pelos pares, mas é propagandeada por uma forte campanha de mídia, que convence muitos. Os pais de uma jovem cientista que denuncia a fragilidade dessa operação se recusam a recebê-la em casa, argumentando que ela está prejudicando o país, por ser contra a criação de empregos e a geração de riqueza.
Quando o cometa fica visível a olho nu no céu, a sociedade se divide entre os que acreditam no risco iminente e os negacionistas, que seduzidos pelo lema do marketing da operação privada ("Don’t Look Up", como no titulo do filme), recomendam "olhar para baixo", negando as evidencias científicas.
A operação falha e a vida como conhecemos na Terra é destruída.
A sátira é exagerada, tem um humor escrachado e caricaturiza os personagens, mas alerta para uma catástrofe que não vai ocorrer em seis meses, nem de uma hora para outra, em um único evento extremo, mas está acontecendo todos os meses, em diferentes lugares do planeta.

A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo

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