
17/12/2020
Celebrado em uma noite de sábado, no dia 12 de dezembro de 2015, o Acordo de Paris já nasceu como um sucesso diplomático, com recorde de assinaturas dos países no mesmo dia e entrada em vigor menos de um ano depois.
Com metas de longo prazo para conter as emissões de gases-estufa, o tratado sinaliza a transição de investimentos para uma economia menos dependente de emissões de carbono e outros causadores do aquecimento global.
No entanto, de lá para cá, o otimismo diante do maior esforço global pelo clima foi transformado em suspense por conta da ascensão de líderes de direita ligados a movimentos que negam as mudanças climáticas, especialmente em países-chave para a agenda climática: os Estados Unidos, maior emissor histórico de gases-estufa, e o Brasil, dono da maior floresta tropical do mundo.
Marcados pelas eleições dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, os cinco anos do Acordo de Paris têm como marca a resiliência política do acordo, reafirmado nesse período por lideranças na Europa e na China. Também segue sendo incorporado a acordos comerciais, como é o caso do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, cuja votação pelo Parlamento Europeu depende justamente de esclarecimentos sobre o cumprimento ao acordo climático, que deve implicar em redução do desmatamento na Amazônia.
A estratégia do Acordo de Paris é baseada em metas anunciadas livremente por cada país —as contribuições nacionais determinadas, ou NDCs, na sigla em inglês —que foram submetidas em 2015 e devem ser atualizadas com metas mais ambiciosas a cada cinco anos.
Até o fim de dezembro, os países devem submeter suas novas metas climáticas para o Acordo de Paris. Os líderes dos países com metas mais ambiciosas devem discursar neste sábado (12) em evento organizado pela ONU em parceria com o Reino Unido, que sedia a próxima conferência do clima, em 2021. Na expectativa de discursar, o governo brasileiro apresentou sua proposta na terça (8), mas não foi aceito pela organização do evento.
Com uma mudança na linha de base de comparação, a nova meta brasileira dá margem para aumento das emissões. a única proibição do acordo sobre a atualização das metas.
“Estamos dizendo aos países da América do Sul e da África: não vamos continuar comprando os mesmos produtos que consumimos no passado. Há uma mudança de padrão”, disse à Folha Yvon Slingenberg, diretora de ação climática da Comissão Europeia.
“Sem comentar sobre a política ambiental brasileira, vemos com preocupação que o setor florestal, que é chave para a redução das emissões no Brasil, não aparece na nova meta [do Acordo de Paris, divulgada nesta semana pelo governo Bolsonaro]”, acrescentou, criticando também o fato de o prazo brasileiro para atingir a neutralidade de carbono estar condicionado à implementação de um mercado de carbono. O Brasil tem barrado esse item nas negociações da ONU. “Se você coloca sua transição condicionada a um fator externo, não vai ajudar o próprio país a sinalizar para onde a economia e a sociedade precisa ir”, afirma Slingenberg.
Slingenberg também aponta que o investimento privado será fundamental — inclusive para a arrecadação de US$ 100 bilhões anuais prometidos pelos países desenvolvidos a partir deste ano — e diz que a União Europeia deve lançar no próximo março uma estratégia financeira para obrigar empresas a expor seus riscos ligados a dependência de fontes de energia fóssil e direcionar o mundo financeiro para investimentos verdes.
A sinalização econômica dada pelo Acordo de Paris já ganhou efeitos visíveis nesses cinco anos, segundo relatório publicado nesta semana pela consultoria Systemiq, voltada para negócios sustentáveis.
“Essa direção [dada pelo Acordo de Paris] aumentou a confiança de líderes para fornecer sinais consistentes nas políticas. Por sua vez, isso criou condições para empresas investirem e inovarem, e para soluções ‘carbono zero’ ganharem escala, de veículos e elétricos a proteínas alternativas [à carne bovina], até combustível sustentável para a aviação”, diz o relatório.
Para saber mais acesse a Folha de S. Paulo
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