
15/12/2020
A comissão externa da Câmara dos Deputados que investiga as queimadas nos biomas brasileiros apresentou na última quarta-feira (9) o relatório final sobre o Pantanal.
O texto atribui o aumento das queimadas na região a "ações humanas criminosas" e "condutas estatais, no mínimo, ímprobas". Para a comissão, seria "ingênuo" culpar somente as condições climáticas.
Dados mostram que a área queimada somente neste ano supera em dez vezes toda a área devastada no Pantanal entre 2000 e 2018.
Isso porque, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas do Pantanal (INPP) e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), 23 mil km² foram queimados neste ano. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2000 e 2018 foram 2,1 mil km² devastados.
O parecer apresentado nesta quarta, de cerca de 300 páginas, foi elaborado pela coordenadora da comissão, deputada Rosa Neide, com base nas audiências públicas realizadas com especialistas nos últimos meses.
O documento traça um panorama da crise ambiental na região e traz recomendações para os poderes Executivo e Judiciário, além de sugestões de propostas legislativas a serem debatidas pelo Congresso Nacional.
A comissão ressalta que as condições climáticas, com aumento da seca e das temperaturas e a falta de chuvas, foram um dos fatores que contribuíram para as queimadas, mas não o "único culpado".
"Se apontássemos o ´clima´ como o ´único culpado´, estaríamos sendo mais que ingênuos, seríamos perniciosamente omissos, corroborando com ações humanas criminosas e condutas estatais, no mínimo, ímprobas. Mais que isso, se delegarmos puramente às condições climáticas o controle da situação, não só isentaríamos de culpa aqueles que a tem, como estaríamos dando aval para que situações como as deste ano voltem a ocorrer", diz o relatório.
“Por isso, sem olvidarmos das excepcionalidades climáticas do ano de 2020 (que tendem a se agravar em razão das ‘mudanças climáticas’ em termos globais), é preciso ‘dar nome aos bois’, pois, se a ‘boiada continuar a passar’, as tragédias socioambientais continuarão a acontecer”, afirma o documento.
Esse trecho faz referência indireta à declaração do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em reunião ministerial em abril, que sugeria que o governo aproveitasse que a sociedade e a imprensa estavam focadas na pandemia da Covid-19 para “passar a boiada” e mudar regras ambientais.
O relatório foi aprovado de forma simbólica pelos integrantes da comissão e será encaminhado ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O colegiado continuará em atividade, mas, a partir de agora, irá se debruçar sobre outros biomas brasileiros, como o Cerrado e a Amazônia.
O parecer ressalta que as mudanças climáticas vistas na região, com calor e seca recordes, estão ligadas, “de uma forma mais ampla, ao modelo de exploração econômica”.
Segundo o documento, por questões econômicas, a pecuária tradicional, extensiva e sobre a pastagem nativa tem sido substituída por “modelos mais lucrativos de criação de gado”, que demandam pasto plantado, “implicando em desmatamento e no aumento do volume de massa vegetal seca”.
“Nesse contexto, o uso de fogo, culturalmente aceito por séculos, ao que tudo indica, está sendo substituído pelo fogo para a abertura de pastagens”, diz o parecer.
O uso do fogo controlado é uma técnica em que se cria um fogo intencionalmente para consumir a maior parte da matéria orgânica. Assim, quando chegar a época da seca, os incêndios, se ocorrerem, são, em tese, menos danosos porque haverá menos matéria para ser queimada.
Ao justificar o aumento das queimadas no Pantanal neste ano, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a dizer que a “queima controlada” não havia sido permitida e que, por isso, a região do Pantanal tinha acúmulo de matéria orgânica que ajudou a disseminar as queimadas.
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