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As assustadoras tempestades de cinzas que põem em risco moradores do Pantanal

08/12/2020

Um fenômeno tem assustado e causado preocupação nos moradores da comunidade Barra do São Lourenço, no Pantanal: as tempestades de cinzas e areia.
De acordo com relatos das pessoas que vivem na comunidade, a situação se tornou frequente nas últimas semanas. Especialistas apontam que se trata de uma consequência do intenso período de incêndios no Pantanal nos últimos meses.
O fogo consumiu quase 4,5 milhões de hectares do Pantanal brasileiro neste ano. De acordo com o Instituto SOS Pantanal, o número corresponde a 30% do bioma no Brasil.
Nas últimas semanas, os incêndios amenizaram. Porém, as pessoas que vivem na região ainda são duramente afetadas pelos resquícios deles.
Moradora de Barra do São Lourenço, a artesã Maria Aparecida Aires de Souza relata que presenciou diversos vendavais carregados de cinzas e areia recentemente.
"É uma sensação horrível. Além de ser prejudicial à nossa saúde, a nossa casa fica cheia de sujeira e as roupas ficam sujas. É uma cinza que gruda em tudo", detalha à BBC News Brasil.
Maria e os outros moradores da comunidade costumam correr para as suas casas em busca de abrigo para fugir dessas tempestades. "Outro dia, estava fora de casa quando começou a ventar forte. Não deu tempo de entrar para colocar máscara. Acabei tossindo muito", relata a artesã.
Segundo especialistas, o fenômeno tem ocorrido em razão da grande quantidade de cinza que foi depositada no solo do Pantanal.
"Os restos dos incêndios têm sido dispersados pelos ventos fortes. As chuvas não foram totalmente suficientes para que as cinzas fossem levadas para dentro dos rios", diz o analista ambiental Alexandre de Matos, que integra o Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) de Mato Grosso do Sul.
Conforme Matos, há relatos de ventos que destelharam casas na comunidade ribeirinha. "Esses vendavais têm sido mais fortes porque os incêndios queimaram muitas árvores que protegiam essas regiões dos ventos fortes. Não há muita copa de árvore atualmente. Elas poderiam segurar essas tempestades de cinzas que têm afetado a região", explica o analista ambiental.
O primeiro registro de tempestade de cinzas no Pantanal, segundo pesquisadores, ocorreu em meados de outubro. O fenômeno foi registrado na Serra do Amolar, local considerado um dos mais importantes para a preservação do bioma.
Na data, uma enorme nuvem baixa marrom cobriu quase toda a região. Imagens feitas por pessoas que acompanharam a cena mostraram as cinzas sendo levadas pelo vento.
Na época, ainda tinha muito fogo no bioma, por isso havia muita fumaça junto com os ventos fortes e a fuligem. O cenário prejudicou a visão de condutores de aeronaves que atuavam no combate aos incêndios.
"O caso de outubro foi uma coisa assustadora, sem precedentes. O dia virou noite em poucos minutos e a situação perdurou até a madrugada", relembra Ângelo Rabelo, do Instituto do Homem Pantaneiro (IHP).
Desde então, houve outros registros de tempestades de cinzas e areia no Pantanal. Conforme os pesquisadores da região, apesar de menos intensos que o primeiro caso, os posteriores continuaram levando problemas às comunidades, à fauna local e àqueles que atuam na preservação do bioma.
"Depois de outubro, já passei por outras duas tempestades de cinzas, mas em menor intensidade. Isso não era algo comum no Pantanal. É algo extremo. Ontem, mesmo, soube de uma situação de pânico por causa dessas tempestades", diz Rabelo. Ele afirma que os registros apontam que o fenômeno costuma avançar do sentido leste para o oeste do bioma.
Para Rabelo, alguns fatores colaboram para o fenômeno: a baixa umidade, a temperatura alta e a ausência de chuvas em período recente.
Ele conta que o fenômeno faz com que o dia comece a escurecer e passa a impressão de que irá chover. "Mas não costuma cair uma gota. É apenas a tempestade de cinzas", relata Rabelo.
Não há um levantamento oficial sobre quantos registros de tempestades de cinzas ocorreram no Pantanal desde outubro. Alguns pesquisadores afirmam saber de três casos. Mas os moradores de Barra do São Lourenço relatam que o fenômeno tem ocorrido quase diariamente nas últimas semanas.

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