
08/12/2020
A ONG britânica Global Witness divulgou um estudo em que afirma que três grandes frigoríficos brasileiros (JBS, Marfrig e Minerva Foods) continuaram comprando gado diretamente de propriedades com desmatamento ilegal no Pará nos últimos 3 anos.
Segundo o levantamento, essas empresas compraram, entre 2017 e 2019, animais de 379 fazendas com cerca de 17 mil hectares (equivalente a 20 mil campos de futebol) de desmatamento ilegal, infringindo o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre Ministério Público Federal (MPF) e os frigoríficos.
O estudo da Global Witness, divulgado nessa quarta-feira (2), mostra que das 379 fazendas com desmatamento ilegal:
* JBS comprou de 327 delas;
* Marfrig, de 89;
* Minerva Foods, de 16.
O G1 procurou as 3 empresas citadas para comentar o estudo.
A Marfrig disse, em nota, que desativou sua única unidade no Pará em março deste ano e que não compra mais gado de propriedades do estado. E afirmou que, nos 89 casos indicados pela ONG, “não houve nenhum abate irregular por parte da companhia”.
A Minerva disse, também em nota, que, após saber do estudo, realizou um “levantamento detalhado” e que não encontrou “qualquer irregularidade alegada pela ONG”.
Ainda segundo a empresa, das 16 propriedades, 3 não estão no banco de fornecedores e que as outras 13 “atendem integralmente aos critérios de sustentabilidade”.
A JBS não respondeu ao G1 até a última atualização deste texto. À ONG, a empresa também negou irregularidades.
A Global Witness afirma que obteve todas as guias de trânsito animal (GTA) de 2014 a 2019 no site da Agência de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará) para identificar os fornecedores de gado de JBS, Marfrig e Minerva nesse período.
A GTA é exigida pelo governo federal para controle sanitário, pois o gado é transportado por todo o país. As guias mostram o movimento do gado desde o nascimento até o abate.
Com isso, a ONG diz que usou esses documentos para determinar as fazendas de origem de todo o gado comprado pelos frigoríficos e cruzou a área com bancos de dados governamentais, como os do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O grupo britânico contou com apoio do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) para verificar se o desmatamento nas fazendas era legal ou ilegal – isso porque, de acordo com o Código Florestal, cada propriedade localizada no bioma Amazônia pode desmatar até 20% de sua área, se tiver autorização para isso.
Os pesquisadores analisaram se o desmatamento das propriedades ocorreu após as datas-limite impostas pelo Termo de Ajustamento de Conduta entre as empresas e o MPF.
Se foi após a data-limite, foi checado se as fazendas pediram autorização para realizar desmatamento ao governo estadual.
“Nossa investigação demonstra claramente que um setor privado não regulamentado e com políticas voluntárias de não desmatamento não conseguiu lidar com a destruição da floresta”, disse em nota Chris Moye, Investigador Sênior da Amazônia na Global Witness.
Além de acusar as empresas, a Global Witness afirma que houve falha nos processos de auditorias contratados pelos frigoríficos, como os das empresas norueguesa DNV-GL e da americana Grant Thornton.
“Todos os envolvidos – fazendas que criam gado, gigantes da indústria da carne brasileira, auditores internacionais, financiadores tradicionais, supermercados, importadores e redes de fast-food – estão destruindo florestas tropicais, ou são cúmplices, com auditorias falhas realizadas por auditores americanos e europeus”, acrescenta.
Além disso, a ONG acusa JBS e Marfrig de comprarem gado de pecuaristas acusados pelo MPF de grilagem de terras, abusos de direitos humanos de povos indígenas e ativistas dos direitos à terra, além do assassinato de representantes de movimentos de trabalhadores sem terra.
Saiba mais lendo a reportagem no G1
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