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´Medicina veterinária pode ajudar a combater pandemia´, diz representante do Brasil no maior festival de ciência do mundo

03/12/2020

Representante do Brasil e das Américas no maior festival de divulgação científica do mundo, o FameLab, a professora de medicina veterinária carioca Gabriela Ramos Leal desde criança gosta de explicar tudo o que parece difícil. No festival, ela mostrou como funciona e para que serve o soro hiperimune de cavalos usado para picadas de cobra e, agora, testado contra Covid-19.
Inexplicável mesmo para ela é o racismo no Brasil, evidente no assassinato, semana passada, de João Alberto de Freitas por seguranças brancos de um Carrefour de Porto Alegre.
Filha de pai branco e mãe negra, ela cresceu entre dois brasis. Aos 34 anos, Gabriela é professora universitária e faz pós-doutorado da Universidade Federal Fluminense (UFF), com bolsa da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj). É a primeira da família pelo lado da mãe a se formar na universidade, algo trivial entre os parentes do lado paterno.


Quando você começou a se interessar por divulgação científica?
Comecei com a minha família. Quando minha avó materna, que não pode concluir os estudos, contraiu câncer ninguém sabia como lhe dar a notícia porque ela tinha muito medo da doença. Coube a mim mostrar que tinha tratamento e esperança. Ela entendeu e passei a ser a explicadora da família. "Pede para a Gabi explicar", eles diziam. E isso foi antes de eu me apaixonar pela ciência.

E quando isso ocorreu?
Sempre gostei de bichos e de histórias. Fui fazer veterinária e descobri nela uma nova fonte. Quis ser professora, fiz mestrado, doutorado, sempre com a preocupação de tornar simples os conceitos complexos.

Você escolheu apresentar no FameLab o soro hiperimune de cavalos usado para picadas de cobra e, agora, testado contra Covid-19. Por quê?
Percebi que a veterinária ainda é pouco conhecida da população. Acham que tratamos apenas de pets. Adoramos fazer isso, mas nosso escopo é muito maior. Eu, por exemplo, sou especialista em bovinos e reprodução in vitro. E a medicina veterinária pode ajudar na saúde humana, a combater a pandemia.

Você ficou entre os dez finalistas de um festival internacional importante, organizado pelo Conselho Britânico, estudou na Austrália, tem uma história de sucesso profissional e acadêmico. Como o racismo afeta sua vida?
O racismo está presente o tempo todo. Ele está no inconsciente coletivo e dói mesmo quando não tem a intenção de ofender. Quem é preto sabe do que falo. O racismo está, por exemplo, na expressão de surpresa de clientes da clínica veterinária quando descobrem que a médica sou eu e não a atendente loura. Se manifesta no motorista de táxi que para ao sinal do meu namorado que é branco, mas passa batido por meu primo negro. Está nos passageiros de ônibus que evitam sentar ao lado de outro primo, um jogador de basquete, que já chorou porque ouviu que "tinha cara de assaltante".

Você sofreu racismo na infância?
Sofri como toda pessoa preta sofre no Brasil. Sou filha de um casamento que já começou com a dificuldade do meu pai fazer a família aceitar minha mãe. "Ela é preta assim da cor do piano?", perguntaram para ele. Cresci achando que meu cabelo era ruim, que era inaceitável ir a uma festa sem fazer uma escova. Na verdade, meu processo de identidade racial começou quando passei a aceitar meu cabelo: ele não é ruim, é crespo.

Quando começou seu processo de identidade racial?
Isso cresce aos poucos, mas tomei mais consciência na época da universidade. As pessoas brancas têm constrangimento de dizer preto ou negro, dizem "de cor", "moreninho", isso é ainda mais racista, mesmo que não seja a intenção. Mostra como o racismo está arraigado na sociedade brasileira. Minha avó materna dizia ao meu tio que ele deveria andar sempre arrumado para não ser confundido com bandido. É como se os pretos tivessem que andar arrumados para "compensar a raça". Tenho um amigo preto que já foi abordado pela polícia ao dirigir o próprio carro, porque acharam suspeito um preto num carro caro. Isso é uma forma de violência diária, que não pode ser normalizada ou aceita. Na faculdade, fui a única aluna negra. E não tive nenhum professor negro de veterinária.

E agora?
Agora sou professora universitária, dou aulas de embriologia e me alegro em ver que há alguns alunos pretos. São poucos ainda, mas a gente tem que combater o racismo, lutar por igualdade, fazer a nossa parte.

Fonte: O Globo

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