
03/11/2020
Os acidentes de espécimes do gavião-real por eletrocussão preocupam um grupo de pesquisadores e voluntários em Rondônia que trabalham na proteção da ave de rapina. Considerada a maior águia das Américas, a Harpia harpyja já é comumente rara de se ver na natureza e a supressão florestal da Amazônia afeta diretamente na reposição desses indivíduos no bioma, segundo especialistas.
"A redução do habitat florestal utilizado pela harpia e a presença de infraestruturas dentro da área utilizada por esta espécie, provavelmente aumentam as chances de encontros homem-harpia e da harpia com as linhas e postes de transmissão de energia elétrica. Por exemplo, harpias juvenis em dispersão do ninho podem passar por áreas com linhas de transmissão e sofrerem acidentes fatais nessas estruturas, ou serem alvo de disparo de arma de fogo", detalhou a bióloga Helena Aguiar-Silva, membro do Projeto Harpia, que desenvolve pesquisas há 15 anos com a espécie e outras aves.
Os impactos ecológicos causados por esse tipo de acidente foram relatados em um artigo publicado recentemente na revista internacional Journal of Threatened Taxa.
Na nota científica, o grupo descreve o acidente de uma espécime fêmea de harpia encontrada morta em uma estrada de Alta Floresta D’Oeste (RO) e o usa como alerta. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Harpia harpyja é alvo de caça e perseguição.
"Perder um indivíduo de uma espécie rara e ameaçada de extinção impacta a sua população. Nós já observamos que este evento de eletrocussão de uma fêmea jovem causa um prejuízo para a espécie, pois essa ave poderia estar reproduzindo na natureza", explicou Almério Gusmão, pesquisador da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e professor do Centro Técnico Estadual de Educação Rural Abaitará (Centec Abaitará), em Pimenta Bueno (RO).
O Projeto Harpia, criado há 23 anos no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), mapeou mais de 100 ninhos de harpia no Brasil e aproximadamente 40 são monitorados todo ano.
Em Rondônia, 21 ninhos de harpia foram mapeados e vem sendo monitorados pelos voluntários do núcleo de Rondônia do projeto. Este núcleo iniciou em 2008 no estado e tem ampliado sua atuação na região ao longo dos últimos 12 anos.
No caso de acidentes por eletrocussão, as chances de sobrevivência desses animais são reduzidas. O risco acontece primeiro porque o poste de energia está instalado na borda da floresta. Com a extração das árvores mais altas, utilizadas como poleiros pelas harpias, por exemplo, os postes estão proeminentes em relação à mata.
"E com essa altura do poste, a harpia vai pousar e sofrer essa descarga elétrica. Algumas delas morrem. O óbito sempre é o principal resultado entre a maioria dos casos já relatados. O importante também é a trajetória que levou esse espécime", complementou Almério Gusmão.
"Existem medidas para reduzir as chances de colisão e eletrocussão fatal em caso de contato. Ações amplamente utilizados em outras regiões da Europa e EUA, como por exemplo, sinalizadores em linhas de transmissão de energia elétrica, a proteção dos cabos elétricos por um material isolante", explicou Helena Aguiar-Silva.
O gavião-real, conforme o voluntário do projeto em Rondônia Carlos Tuyama, é uma ave territorialista e, normalmente, um casal da espécie requer uma área de pelo menos 50 km² de floresta para caça e reprodução, que acontece de três em três anos.
"90% da harpia que tem no mundo está no bioma amazônico brasileiro, principalmente norte do Mato Grosso e em Rondônia. Está entre os três maiores predadores aéreos do mundo e é uma espécie vulnerável. Em Rondônia, temos uma situação bastante preocupante, pois houve grande perda da cobertura florestal original. Fazemos o acompanhamento não só dos ninhos, mas de todas as ocorrências. O interesse é saber como eles estão desaparecendo", explicou Tuyama.
Leia mais no G1
Obras de contenção de encostas e enchentes no Rio tem cronograma acelerado por causa dos efeitos do El Niño
21/07/2026
Recife vai criar modelo de coleta e reciclagem de embalagens
21/07/2026
Amazônia fecha 1º semestre com menor desmatamento em 10 anos
21/07/2026
Amazônia pode não se recuperar de seca do último El Niño mesmo após sete anos, diz estudo
21/07/2026
Inverno transforma o comportamento da fauna brasileira
21/07/2026
Agenda 2030: longe das metas, perto das cidades
21/07/2026
