
20/10/2020
Bela está apoiada num tronco com o toco da pata dianteira direita amputada; Maria Bonita, que divide com ela o recinto, já não tem uma das patas direitas e sua cauda foi cortada ao meio. As duas jaguatiricas são personagens de uma história triste, vivida por muitos animais silvestres nas cercanias de estradas e condomínios paulistas.
Vítimas de atropelamento, Bela e Maria Bonita perderam para sempre o direito à liberdade. Resta-lhes o confinamento, restrito a uma área de 7,25 m por 3,10 m.
A dez passos dali, cerca de 20 animais silvestres se dividem entre gaiolas e caixas de transporte: maritacas com asas cortadas por linha de pipa; saguis queimados por contato com fiação elétrica; um carcará com patas quebradas e uma coruja com asas fraturadas em choques com veículos; filhotes de gambá órfãos da mãe morta a marretadas.
Menos fortuitos do que poderiam parecer à primeira vista, os acidentes e os atos de crueldade que condenam esses animais à morte ou à dependência de abrigo são o reflexo do descaso com a preservação da fauna brasileira.
Estamos a 50 km de São Paulo, em Jundiaí, na sede da Associação Mata Ciliar, instituição que, nascida para salvar o verde, se viu às voltas com o destino dos moradores nativos das matas, que vêm sendo expulsos de seu habitat. Aqui funciona um centro de acolhimento, tratamento e reabilitação de animais silvestres.
Devido à alta demanda, a tratadora Alexia Motos, 20, corre para dar um reforço na clínica. Carrega um ouriço que sofreu graves queimaduras nas patas dianteiras, na pata esquerda traseira e na cauda.
Em 34 anos de existência, a entidade nunca recebeu tantas vítimas como agora. Em média, 25 animais de todo o país vão parar ali diariamente —número recorde—, o dobro do que a entidade recebia no mesmo período de 2019.
De cada 10 que chegam, morrem 3 durante os primeiros atendimentos e sobrevivem 7, dos quais 4 ficarão em cativeiro pelo resto da vida. Apenas 3 voltarão à natureza.
“Aqueles animais que, no passado, eram resgatados em áreas rurais com ferimentos, agora se encontram encurralados por condomínios, parques industriais e rodovias. Os que ainda sobrevivem são engolidos pelo fogo das queimadas, alvejados por tiros de caçadores e capturados para serem comercializados como animais de estimação”, relata Jorge Bellix de Campos, 60, presidente da associação.
“O cenário mudou rapidamente. E a fauna não teve tempo nem a devida atenção para ter uma chance de sobreviver.”
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