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“Causamos a mais acelerada degradação da natureza desde a extinção dos dinossauros”

15/10/2020

O cenário atual do meio ambiente é preocupante e devastador. Para o especialista em sustentabilidade Bernardo Strassburg, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e diretor executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade, estamos testemunhando a mais acelerada degradação da natureza e extinção de espécies desde a última extinção em massa. Strassburg é coautor do mais completo relatório das Nações Unidas sobre o estado da natureza e da biodiversidade, publicado em novembro de 2019. “Esse quadro é desastroso tanto para a natureza quanto para a gente, porque a humanidade é completamente dependente do sistema de suporte da biosfera do planeta e das múltiplas contribuições que a natureza provê, desde polinização até um clima que evita deslizamentos, pragas, pandemias.”
Apesar disso, há motivos para otimismo, segundo o próprio Strassburg. Em uma série de estudos publicados na revista Nature em setembro deste ano e dos quais o pesquisador brasileiro participou, cientistas concluíram que é possível não só inverter a curva de degradação como modificá-la para uma de ganho, além de melhorar a condição da natureza. “Nos perguntamos se seria possível sermos a primeira geração humana a deixar uma condição da natureza melhor do que encontramos, e concluímos que, sim, é possível”, diz o especialista.
Usando diferentes modelos que vêm sendo desenvolvidos e refinados há pelo menos duas décadas, que combinaram cenários futurísticos realistas de crescimento populacional e padrão de consumo, o objetivo do estudo foi descobrir o quão ambiciosos os planos de restauração e prevenção podem ser, mas sem tirar o pé do chão. “Sabemos que não adianta só ficar dizendo ‘tem que parar de desmatar tudo, restaurar o planeta inteiro….’, pois a população humana também vai crescer, vamos precisar aumentar a produção agrícola, entre outros”, pontua. “Mas identificamos que não há um conflito entre os planos ambiciosos de conservação e restauração e as metas de produção de alimentos. Partindo disso, exploramos quais mudanças realistas podemos fazer nas nossas economias para reduzir a perda acelerada de natureza e das espécies.”
Em entrevista a GALILEU, Strassburg falou sobre a abordagem inovadora do estudo e que estratégias são essas que podem não só frear a degradação da biodiversidade como também revertê-la.

A abordagem do estudo incluiu modelos diferentes de biodiversidades, ecossistemas e comunidades, pensando em estratégias integradas. Por que isso foi considerado inovador e qual a importância de se estudar todos esses ângulos? Primeiro, pelo grau de ambição dos cenários que a gente queria explorar. Até hoje, os cenários se preocupavam principalmente com reduzir a perda, o que, claro, é importantíssimo. Mas a gente queria também investigar um cenário em que fosse possível inverter essa curva e ter um ganho de condição da natureza. A segunda inovação foi combinar múltiplos modelos de cenários do mundo com diferentes modelos de biodiversidade. Isso nos permitiu ter várias métricas diferentes para vários aspectos da biodiversidade, porque quando a gente fala só “biodiversidade” às vezes não dá para compreender bem a riqueza, a variedade de coisas que estão contidas nessa palavra. Essa riqueza de modelos permitiu ter uma visão dos diversos aspectos da vida. Eles também ajudam a ter mais segurança dos resultados, pois quando você chega à mesma conclusão usando cinco, seis, sete modelos diferentes, há maior robustez dos resultados.

Como você avalia a situação atual da degradação da biodiversidade? A gente está promovendo as mais aceleradas degradação da natureza e extinção de espécies desde a última extinção em massa, que foi a dos dinossauros. É um quadro muito assustador, tanto pelo ponto de vista ético quanto das consequências que traz para a própria humanidade. Nos últimos 40 anos, a população total de animais do planeta caiu pela metade por causa da ação humana. Isso por si só é um dado muito sério. Mas também é muito sério se pensarmos que a humanidade é completamente dependente do sistema de suporte da biosfera do planeta e das múltiplas contribuições que a natureza provê, desde polinização até um clima que evita deslizamentos, pragas, pandemias. Alguns chamam isso de serviços ecossistêmicos, outros chamam de contribuições da natureza para as pessoas. No fundo é a mesma coisa, são os benefícios que a gente usufrui da natureza, e eles estão em declínio. Então esse quadro é desastroso tanto para a natureza quanto para a gente. Por outro lado, o que a gente mostra no artigo é que é perfeitamente possível mudar esse quadro. E o bom é que aí a gente beneficia não só a natureza, mas também melhora todas as outras crises, até a própria crise climática — 30% de tudo o que a gente precisa fazer para combater as mudanças climáticas são as chamadas soluções baseadas na natureza. A principal delas, que investigamos bastante no artigo, é a restauração das áreas perdidas. E isso tem um potencial gigantesco de sequestrar carbono da atmosfera, de reciclar água dos rios, entre outros. Então, se por um lado o estado e a tendência atuais são extremamente negativos, por outro uma virada é factível.

O restante da entrevista pode ser lida no .pdf a seguir.

Fonte: Revista Galileu

uerj_causamos_mais_acelerada_degradacao_desde_dinossauros_553.pdf

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