
23/07/2026
Uma nova espécie de cobra que viveu onde hoje é o interior de São Paulo entre 85 milhões e 75 milhões de anos atrás pode ajudar os cientistas a entender melhor o início da evolução desses animais.
Batizada de Tametara mirim, ela tinha adaptações para viver debaixo da terra e foi descrita a partir de um fóssil que preservou parte do crânio e mais de uma centena de vértebras desse réptil primitivo.
O estudo sobre o achado foi publicado nesta quarta-feira (22) na revista científica "Nature".
A descoberta traz novas pistas para uma das principais questões sobre a origem desses bichos: em que tipo de ambiente viviam os primeiros representantes do grupo.
➡️ Por muito tempo, cientistas discutiam se o corpo longo e sem membros das cobras teria surgido a partir de ancestrais que viviam no mar ou de ancestrais que cavavam a terra — como se fosse necessário escolher um único caminho evolutivo.
Os novos achados não resolvem esse debate, no entanto, sugerem um cenário mais parecido com um mosaico: diferentes linhagens de cobras primitivas já ocupavam ambientes bem distintos, da superfície ao subsolo, passando também pela água.
O fóssil chamou também atenção também pelo estado de conservação. Encontrado em 2020 em um sítio paleontológico de Presidente Prudente, no oeste paulista, ele é, segundo os pesquisadores, o primeiro fóssil articulado de cobra conhecido no país.
Isso significa que, em vez de apenas ossos isolados, diferentes partes do esqueleto permaneceram conectadas no material, além de terem sido preservadas em três dimensões.
Até então, as cobras conhecidas do Cretáceo no país eram identificadas principalmente a partir de ossos isolados, o que limitava as informações disponíveis sobre sua anatomia e seu modo de vida.
Esse nível de conservação permitiu aos pesquisadores analisar detalhes pouco conhecidos da anatomia dessas primeiras cobras.
Com imagens de microtomografia, técnica semelhante a um raio-X em três dimensões, a equipe examinou por exemplo o interior do crânio sem danificar o fóssil e reconstruiu digitalmente a região ocupada pelo cérebro.
🐍 Essas informações foram comparadas às de outras espécies fósseis e atuais e ajudaram a mostrar que a Tametara mirim pertence a uma linhagem muito antiga e tinha essas adaptações à vida debaixo da terra.
A análise revelou ainda que as primeiras cobras já apresentavam uma diversidade maior de formas de vida e de características do cérebro do que se imaginava.
Para Tiago Simões, professor da Universidade de Princeton e um dos autores do estudo, o achado tem também um significado especial por ter sido feito a partir de um fóssil brasileiro.
“Foi uma experiência e oportunidade única. Já participei de diversas descobertas nesse campo do conhecimento, mas entender a origem das serpentes sempre foi um dos meus grandes objetivos pessoais. E essa descoberta sair de um fóssil encontrado no Brasil é a cereja no topo do bolo”, disse ao g1.
Conclua a leitura desta reportagem clicando no g1
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