
13/10/2020
Os efeitos das mudanças climáticas em florestas tropicais já foram amplamente estudados e divulgados. Sabemos, por exemplo, como as alterações no regime de chuvas podem transformar completamente matas em savanas nos próximos 80 anos se nada for feito.
No entanto, pouco se sabe sobre as relações entre os organismos em ecossistemas como aqueles que as bromélias abrigam —ou melhor, pouco se sabia.
Em um estudo recente publicado na revista científica especializada Nature Communications, 27 pesquisadores de diversos países conduziram um experimento para avaliar como esses microcosmos respondem a mudanças climáticas como ausência de chuvas ou e o impacto de grandes volumes de água desproporcionalmente distribuídos (inundações).
O estudo, coordenado pelo professor do departamento de biologia animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Gustavo Quevedo Romero, com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), é o primeiro a avaliar esses ambientes aquáticos continentais tão difundidos nas florestas neotropicais das Américas Central e do Sul.
Pesquisas até o momento tinham se voltado apenas para os chamados ecossistemas aquáticos lóticos —águas correntes, como riachos e corpos d’água.
Romero e seus colaboradores viram que são os organismos muito pequenos, conhecidos como detritívoros (ou decompositores), que sofrem mais com as mudanças do clima, e não os grandes predadores.
Isso porque tanto o excesso de chuva quanto a falta dela levam à escassez de recursos essenciais para a sobrevivência desses microrganismos nos tanques das bromélias.
“As bromélias possuem tanques que são completados com água e ali vive uma biota bastante diversificada de vírus, bactérias, fungos, insetos até girinos de anfíbios. Algumas espécies de anfíbios vivem apenas nas bromélias, então elas são muito importantes para a fauna local.”
Para chegar a essa conclusão, os cientistas conduziram experimentos em sete locais distintos, com condições climáticas diferentes: Ilha do Cardoso (SP) e Macaé (RJ), no Brasil, e matas da Argentina, da Costa Rica, da Colômbia, de Porto Rico e da Guiana Francesa. Em cada local, coletaram 30 bromélias, que foram levadas ao laboratório, lavadas, plantadas novamente no local de origem. Os organismos foram recolocados em seus tanques, para garantir que cada planta tivesse sua fauna original e suas relações ecológicas.
Cada bromélia foi selecionada aleatoriamente para receber um regime de chuvas maior ou menor do que aquele verificado para a média local da região, calculada com dados dos últimos cinco anos, no mesmo período.
“Se não tivéssemos essas médias, seria mais difícil calcular o quanto cada alteração é ou não significativa para o local.”
A intenção da pesquisa não era fazer projeções de como aquele ecossistema vai responder no futuro, mas, sim, como as mudanças vão interferir nos organismos ali presentes.
Saiba mais lendo a reportagem na Folha de S. Paulo
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