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Com patrimônio natural em risco por queimadas, Brasil é o país onde mais se descobrem espécies de plantas

01/10/2020

As queimadas que ardem no Brasil transformam em cinzas o mais rico patrimônio natural do mundo. Divulgado hoje, o maior estudo já realizado sobre a diversidade atual de vegetais e fungos do planeta mostra que o Brasil é o país onde mais se descobrem espécies de plantas, uma média de 200 por ano — 216 delas só no ano passado.
Já se sabia que o Brasil é o país mais rico em plantas e fungos do mundo, com cerca de 41 mil espécies descritas, pouco menos que a metade delas exclusivas. Mas o novo estudo revela que esse potencial é ainda maior do que o imaginado.
É um patrimônio com aplicação em produção de alimentos, medicamentos, biocombustíveis, materiais e serviços ambientais, frisa Rafaela Compostrini Forzza, do Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro, uma das autoras do relatório. No mundo, em 2019, foram descobertas 1.942 espécies de plantas e 1.886 de fungos.
— O fato de o Brasil ser o país que mais descreve plantas no mundo tem dupla importância. A mais óbvia é demonstrar nossa gigantesca biodiversidade. A segunda, que temos ciência altamente qualificada, para identificar essa riqueza e seus usos — afirma Forzza.
Chamado “Estado Mundial de Plantas e Fungos”, o relatório foi coordenado pelo Kew Gardens, em Londres, em colaboração com 210 cientistas, de 97 instituições em 42 países. Os dados são referentes a 2019, ano do inventário mais recente.
A biodiversidade brasileira se faz presente em número e em tamanho. Nada menos do que 33 das espécies descritas agora são árvores, com novos registros em todas as regiões — na Amazônia estão 16.
— Descobrir árvores inteiramente novas impressiona. É preciso ter uma biodiversidade colossal para que árvores de dezenas de metros de altura possam passar incógnitas em pleno século XXI — enfatiza Forzza.
O bioma onde mais se descreveram espécies foi a Mata Atlântica, com 71. E isso mesmo se levando em conta que restam pouco mais de 12% da floresta original. Na Amazônia, foram 32 espécies novas de plantas, mas Forzza salienta que o número real de espécies ainda não conhecidas é muito maior. A falta de recursos para a pesquisa impede descobertas.
— Não há recursos suficientes para pesquisar na Amazônia, e ela é pouquíssimo conhecida. O mesmo vale para todo o Centro-Norte do Brasil. Com o atual ritmo de destruição, podemos ter um patrimônio inteiro destruído antes mesmo de ser conhecido. Para evitar isso, é preciso existir um projeto de nação que valorize nossas riquezas naturais — acrescenta a botânica.
Entre as descobertas de 2019 no Brasil estão duas espécies selvagens de mandioca, uma de batata-doce e uma de cará. Todas com potencial agrícola. “A descoberta de novas espécies de mandioca tem importância global, pois 800 milhões de pessoas têm sua base alimentar nessa família de plantas”, diz o relatório.
Novas espécies podem ser usadas não apenas no plantio direto, como em cruzamentos com outras mandiocas para agregar resistência a doenças ou tolerância a mudanças ambientais.
Também foram identificadas no país 24 espécies novas da família da goiaba, da jabuticaba e da pitanga. Mesmo famílias de plantas muito pesquisadas surpreenderam. Foram descobertas 24 espécies de orquídeas e sete de bromélias.
— Estamos muito longe de conhecer tudo o que temos e vemos tragédias, como que a acontece agora no Pantanal. Existem no Pantanal espécies exclusivas e lá estão também algumas das últimas florestas estacionais do Brasil — observa o botânico Vinícius Castro Souza, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiros (Esalq/USP), em Piracicaba.
Porém, segundo o estudo, de cada cinco espécies de plantas no mundo, duas estão em extinção. Um dos exemplos de espécie ameaçada vem da Mata Atlântica brasileira. É o angelim Abarema filamentosa, com potencial medicinal e ornamental. A pesquisa destaca que evitar extinções vegetais é proteger a própria espécie humana. Além de prestar serviços, como regular o clima e o abastecimento de água, as plantas fornecem comida, energia e medicamentos.
Atualmente, 90% da comida do planeta são fornecidos por 15 espécies de plantas, como milho, arroz e trigo. O estudo identificou 7.039 plantas comestíveis com potencial agrícola.
Oitenta por cento do biocombustível do mundo é produzido com seis espécies: cana-de-açúcar, milho, soja, dendê, colza e trigo. O relatório, todavia, identificou 2.500 espécies com potencial de oferecer energia limpa.
O diretor de ciências do Kew Gardens, Alexandre Antonelli, diz que o mundo deu às costas ao potencial das plantas para solucionar questões globais fundamentais, como segurança alimentar e mudanças climáticas. Mas que é tempo de mudança:
— Ao iniciarmos a década mais crítica que nosso planeta já enfrentou, esperamos que este relatório dê ao público, às empresas e aos formuladores de políticas os fatos de que precisam para exigir soluções baseadas na natureza para que possam enfrentar as ameaças triplas das mudanças climáticas, perda de biodiversidade e segurança alimentar — afirma.

Fonte: O Globo

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