
29/09/2020
Na primavera, é comum o aumento de resgates de animais silvestres em residências, principalmente em bairros cercados de natureza, como Barra, Recreio e Jacarepaguá. A estação marca o período de ninhada de várias espécies, especialmente de gambás, que acabam buscando alimento e abrigo em território urbano se não encontram em seu habitat.
Este ano, o movimento começou um pouco antes. Além do marsupial, há aparições frequentes de ouriços, micos, jacarés, pássaros diversos e cobras como a jiboia. Mas o que fazer ao se deparar com um desses animais? Segundo especialistas, a primeira medida a tomar é não tentar capturá-los ou afugentá-los e entrar em contato com o Disk Rio, pela central de atendimento 1746. O chamado aparece no sistema da Patrulha Ambiental e é encaminhado para as esquipes de plantão, que fazem o resgate.
Porta-voz da Patrulha Ambiental e coordenador de monitoramento e fiscalização da Secretaria municipal de Meio Ambiente, Fábio Belchior desaconselha qualquer tentativa de interação:
— O ideal é não mexer no animal. As pessoas ficam um pouco assustadas porque a resposta automática da ligação diz que o resgate será feito em até 64 horas. Mas sempre entramos em contato no mesmo dia para entender melhor a situação.
O coordenador também frisa que não se deve alimentar qualquer animal silvestre. A prática pode ser entendida como um incentivo a visitas a outras residências.
— Há muitos animais na região da Barra e do Recreio, que estão próximos do Parque da Tijuca e do Maciço da Pedra Branca. É preciso evitar deixar comida ou oferecer alimento a eles próximo de casa. Se o animal entende que pode achar alimento ali, vai acabar voltando.
Ainda segundo Belchior, é preciso atenção redobrada neste período do ano, quando a demanda da Patrulha Ambiental cresce. Ao longo de 2019, foram resgatados cerca de três mil animais, dos quais quase mil foram capturados nesta época.
Caso estejam debilitados, antes de serem reintroduzidos na natureza os animais resgatados são levados para o Centro de Recuperação de Animais Silvestres (Cras), no campus de Vargem Pequena da Universidade Estácio de Sá. Lá, entram em ação o médico veterinário e biólogo Jeferson Pires e sua equipe, formada por outros dois veterinários e cerca de 30 alunos da instituição.
— O caso mais comum é o de pessoas que pegam filhotes e tentam tratá-los por conta própria. Muitas vezes elas os alimentam de maneira errada, o que pode acabar levando os animais à morte ou a problemas nutricionais graves, que podem se tornar irreversíveis — alerta Pires.
Há outros riscos: além da possibilidade de transmitir doenças aos seres humanos, algumas espécies podem se tornar agressivas. Pires conta que já viu casos de macacos-prego, mais comuns na Zona Sul, invadirem residências e até abrirem geladeiras à procura de comida. O mesmo pode acontecer em escala menor com micos, comuns na Zona Oeste:
— Sem contar que um contato mais íntimo com esses animais pode causar sérios danos a eles. Em parques, por exemplo, muitas pessoas mordem as frutas e dão o resto para os animais. Eles são muito sensíveis a herpes, e o ser humano tem herpes na cavidade oral, é normal. A saliva humana pode causar encefalite nos animais. E o contato com nossa espécie pode abrir portas para diferentes doenças de ambos os lados.
Pires mora ao lado do Cras e costuma ser requisitado mesmo fora do horário do expediente, especialmente na primavera. Durante a estação, os gambás são seus principais pacientes: recebe em torno de 50 diariamente. De cerca de 3.400 animais atendidos anualmente, em média, no local, cerca de 1.300 deles são gambás.
O biólogo Marcello Mello, que há dez anos resgata animais silvestres na região, explica o fenômeno:
— O gambá conseguiu se adaptar a áreas urbanas e vive principalmente onde há áreas verdes. Sua ninhada gera de oito a 12 filhotes. É um marsupial, como o canguru, e os filhotes se alimentam inicialmente dentro da bolsa. Mas depois passam a andar agarrados nas costas da mãe, e acontece de ela deixar alguns para trás durante a fuga de predadores.
O biólogo avisa que os humanos representam mais perigo para os gambás do que o contrário. Inclusive, a espécie é considerada ótima predadora de ratos, lacraias, escorpiões e aranhas.
Morador da Ilha Primeira, na Barra, ele conta que é comum ver ninhos desses animais em telhados. Outras espécies também fazem visitas recorrentes.
— Geralmente, quando uma das ecobarreiras da Barra se rompe e as gigogas se espalham, vários animais, como jacarés e cobras-d’água, fogem e acabam parando em residências próximas. Aqui, a maior parte dos resgates que faço está ligada a esse desequilíbrio ambiental — diz.
Fonte: O Globo
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