
29/09/2020
As queimadas no Pantanal devem gerar impactos diretos e indiretos no bioma, incluindo falta de alimentos, desequilíbrio ambiental e risco de extinção de animais. É o que afirma um relatório do Instituto Homem Pantaneiro (IHP).
O documento foi anexado ao inquérito da Polícia Federal que investiga quatro fazendeiros por suspeita de iniciarem os incêndios que destruíram mais de 25 mil hectares do Pantanal, em Mato Grosso do Sul. O Instituto Homem Pantaneiro é responsável pela gestão de algumas reservas da Serra do Amolar, região considerada a mais preservada do Pantanal.
De acordo com o documento, assinado pela doutora em Ecologia e Conservação Letícia Larcher e pelo médico veterinário Diego Viana, os animais do bioma podem sofrer com a exposição de predadores, alteração de fauna, flora e alimentos, além de terem mudanças nos padrões de comportamento, migrações e na estrutura alimentar no ecossistema. Algumas espécies ainda podem ter o risco de extinção ampliado.
Larcher, que também é coordenadora técnica do IHP, explica que o Instituto recebeu um ofício da PF para ser anexado ao processo, pedindo algumas respostas sobre o Pantanal.
"O fogo afeta tanto fauna quanto flora, de formas diferentes. Queimadas nas proporções que tivemos neste ano alteram o habitat", afirma Larcher.
De acordo com a doutora em Ecologia e Conservação, espécies de plantas podem deixar de existir por um período de tempo, já que cada ser vivo reage diferente após o fogo.
"Por exemplo, uma espécie de planta pode demorar mais para responder quando a chuva chegar do que outras. Um animal que está associado a essa planta, vai precisar de ainda mais tempo para conseguir se adaptar ao local queimado", explica Larcher.
A especialista aponta que a exposição a predadores de animais que vivem no Pantanal também aumenta após o fogo, já que a queimada deixa a superfície na mesma dimensão. "Se pegarmos uma cotia, por exemplo, que é um roedor que se esconde em tocas, quando essas tocas são destruídas pelo fogo, ele precisa criar locais novos para se esconder de predadores. Sem local para fuga, elas ficam mais suscetíveis a outros predadores que não os já naturais", afirma.
Alterações nos alimentos, padrões de comportamento e migrações dos animais também devem ocorrer, conforme a coordenadora técnica do Instituto Homem Pantaneiro. "Quando o fogo destrói uma área grande, o conteúdo nutricional dos alimentos para a fauna fica prejudicado. Os animais que hoje procuram goiaba, por exemplo, que deveria estar florescendo, não conseguem achar e precisarão repor de alguma outra maneira".
"Uma alteração de fogo em área grandes pode gerar atraso na reprodução de animais, demorando mais para ter uma geração nova. Cada espécie responde de uma forma, mas definitivamente não será no mesmo ritmo do que o natural. Além disso, o Pantanal é um grande refúgio de aves migratórias, saindo por exemplo da Argentina e indo para os EUA, parando aqui para se alimentar. Quando o fogo passa e altera o ambiente, deve ter mudança de migrações também, já que esses animais precisarão procurar alimentos em outros locais" Letícia Larcher, doutora em Ecologia e Conservação.
Larcher ainda aponta que a tendência é de que o Pantanal tenha uma alteração na estrutura trófica - com alteração nas cadeias alimentares - com a tendência de colonização por espécies invasoras.
Leia mais no G1
Mês dos manguezais expõe desafios ambientais na Barra e Jacarepaguá; saiba o que vem sendo feito
23/07/2026
Livro gratuito sobre a castanheira-da-amazônia é semifinalista do Jabuti
23/07/2026
10 bairros de São Paulo terão troca gratuita de lâmpadas
23/07/2026
Fóssil raro achado no Brasil revela nova espécie de cobra que viveu no interior de SP há milhões de anos
23/07/2026
Sem predador e com até 20 cm, rã-touro ameaça fauna em Florianópolis
23/07/2026
Área queimada no Brasil cai 58% em 2025
23/07/2026
