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Araras-azuis devem voltar para lista de animais brasileiros ameaçados de extinção, diz maior especialista na espécie

24/09/2020

As araras-azuis vivem um drama em dois tempos no Pantanal, bioma dos quais são um dos maiores símbolos. No Mato Grosso do Sul, epicentro das queimadas de 2019, elas sofrem uma agonia que não cessa quando o fogo se apaga. E, ao norte, no Mato Grosso, as chamas consomem o principal santuário da espécie, que já teve mais de 90% de sua área devastada.
A maior especialista do mundo na espécie e presidente do Instituto Arara Azul, Neiva Guedes, está certa de que as araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) voltarão para a lista dos animais ameaçados de extinção, da qual haviam saído em 2014. A destruição é tamanha que Guedes, há mais de 30 anos estudiosa do Pantanal, afirma que nunca se viu nada igual.

Como está a situação das araras-azuis no Pantanal?
Muito difícil. Elas devem voltar para a lista dos animais brasileiros ameaçados de extinção.

Por quê?
Elas sofrem de duas formas. No Pantanal do Sul, em Mato Grosso do Sul, são as terríveis consequências do pós-fogo de 2019. E no Pantanal do Norte, no Mato Grosso, as queimadas estão ativas. Elas atingem o mais importante santuário da espécie, a Fazenda São Francisco de Perigara, em Barão de Melgaço, que teve 92% da área queimada.

Quão grandes são as perdas?
Nas queimadas de 2019 perdemos 40% dos casais reprodutores, com um impacto grande no futuro da espécie. Neste ano nem sabemos ainda, tamanha a destruição. Nunca vimos nada igual ao que presenciamos agora. Como as queimadas de 2020 já destruíram uma área muito maior (cerca de 3 milhões de hectares até setembro) que as do ano passado, tememos ainda mais pelo pós-fogo.

O que acontece depois que o fogo é extinto?
O pós-fogo é um período de agonia de duração incerta, muitas vezes, pior que as chamas. Ele traz fome e perda de habitat. Vemos isso na região Miranda (MS), no Refúgio Ecológico Caiman, o maior centro de reprodução da espécie, atingido no ano passado. As araras-azuis ficaram sem comida e ninhos. Elas são extremamente especialistas, comem apenas os frutos das palmeiras acuri e bocaiúva. Vimos que filhotes sobreviventes das queimadas de 2019 tiveram deficiências devido à falta de comida. As araras tentam comer a bocaiúva queimada, mas não se sabe o quanto esta é nutritiva. E as araras também perdem seus ninhos.

Quão frágeis elas estão?
Neste ano, pela primeira vez, documentamos uma arara-azul matar outra. Essas araras são muito sociáveis, os bandos vivem em harmonia. Mas seus ninhos foram queimados. E as araras entraram em conflito. Esse tipo de comportamento brutal, movido pelo desespero, nunca tinha sido observado na espécie. E não é só isso.

O que mais?
Aumentou muito a predação de araras-azuis por animais famintos. Documentamos iraras e jaguatiricas matando e comendo araras-azuis adultas no ninho. As azuis voam, são as maiores aves da família das araras e papagaios, mas são vulneráveis. Elas acabam traídas por sua lealdade. Como os casais reprodutores não abandonam seus ovos e filhotes, eles se tornam presas de carnívoros, que aprenderam a escalar árvores muito altas. É desesperador. E há ainda a predação humana, gente que se aproveita para capturar araras e papagaios e vendê-los no mercado ilegal.

Aumentaram as apreensões?
Sim. Temos recebido mais araras e papagaios apreendidos de traficantes de animais. Mas só tem tráfico porque há quem compre. É uma vergonha que exista gente que se aproveite da situação e compre esses animais para aprisioná-los por prazer e ostentação.

O que a senhora está fazendo agora?
Vou passar a semana em campo, avaliando os efeitos das queimadas na Fazenda São Francisco de Perigara, que faz um trabalho muito bom de conservação, mas foi atingida por fogo que veio de fora.

O que é preciso fazer para combater as queimadas no Pantanal?
É preciso mudar o uso do fogo, trabalhar em prevenção. Tivemos queimadas recordes por dois anos seguidos, em 2019 e 2020. O Pantanal é muito guerreiro, resiliente, temos esperança de que vai se recuperar, não sabemos em quanto tempo. Mas é necessário trabalhar para evitar novos desastres. Bioma algum aguentará sucessivas tragédias.

Fonte: O Globo

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