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Mudanças climáticas explicam o efeito cascata nos incêndios florestais da Costa Oeste americana

15/09/2020

Múltiplos incêndios gigantes queimando mais de 1,2 milhão de hectares. Milhões de moradores respirando ares tóxicos. Apagões contínuos e ondas de calor que passam dos 50°C. A mudança climática, nas palavras de um cientista, está se esfregando na cara da Califórnia.
A crise enfrentada pelo estado americano mais populoso do país é mais do que apenas um acúmulo de catástrofes individuais. É também um exemplo de algo com que os especialistas climáticos há muito se preocupam, mas que poucos esperavam ver tão cedo: um efeito cascata, no qual uma série de desastres se sobrepõe, desencadeando ou amplificando uns aos outros.
— Você está derrubando o dominó de maneiras que os americanos nunca imaginaram — diz Roy Wright, que dirigiu programas de resiliência para a Agência Federal de Gestão de Emergências até 2018 e cresceu em Vacaville, na Califórnia, perto de onde está um dos maiores incêndios deste ano. — É apocalíptico.
O mesmo poderia ser dito para toda a Costa Oeste dos Estados Unidos nesta semana, em Washington e Oregon, onde cidades foram dizimadas por chamas infernais enquanto os bombeiros foram levados até seus limites.
As crises simultâneas da Califórnia ilustram como o efeito cascata funciona. Um verão escaldante levou a uma seca nunca antes vista. Essa aridez ajudou a tornar os incêndios florestais desta temporada os maiores já registrados — seis dos 20 maiores da história moderna da Califórnia ocorreram este ano.
Se as mudanças climáticas eram uma noção um tanto abstrata uma década atrás, hoje é muito real para os californianos. Os incêndios florestais que são intensamente quentes não estão apenas expulsando milhares de pessoas de suas casas, mas também causando a infiltração de produtos químicos perigosos na água potável.
Os avisos de calor excessivo e o ar sufocante e enfumaçado ameaçam a saúde das pessoas que enfrentam, ao mesmo tempo, uma pandemia. E a ameaça de mais incêndios levou as seguradoras a cancelar as apólices dos proprietários, e a principal empresa elétrica do estado a desligar a energia de dezenas de milhares de pessoas preventivamente.
— Se você nega as mudanças climáticas, venha para a Califórnia — disse o governador do estado, o democrata Gavin Newsom, no mês passado.
Cientistas climáticos afirmam que é evidente o que está por trás desse cenário de desastre: o comportamento humano, principalmente a queima de combustíveis fósseis como carvão e petróleo, libera gases de efeito estufa responsáveis pelo aumento das temperaturas, desidratando florestas e preparando-as para queimar.
Mark Harvey, que foi diretor sênior de resiliência no Conselho de Segurança Nacional até janeiro, disse que o governo tem problemas para se preparar para situações como a que está acontecendo na Califórnia.
— O governo faz um trabalho muito, muito ruim ao analisar cenários com efeito cascata — diz Harvey — A maioria dos nossos sistemas é construída para lidar com um problema de cada vez.
De certa forma, o fogo que atinge a Califórnia este ano é o resultado do que aconteceu nos anos passados. Segundo Serviço Florestal dos EUA, uma seca prolongada que terminou em 2017 foi uma das principais causas da morte de 163 milhões de árvores nas florestas californianas na última década. Um dos incêndios mais rápidos deste ano devastou as regiões que tinham a maior concentração de vegetação morta, ao sul do Parque Nacional de Yosemite.
Mais ao norte, o chamado Bear Fire se tornou o décimo maior incêndio na história da Califórnia — queimando uma área impressionante de 93 mil hectares em um período de 24 horas.
— É realmente chocante ver o número de incêndios rápidos, extremamente grandes e destrutivos queimando simultaneamente — relata Daniel Swain, um cientista climático do Instituto de Meio Ambiente e Sustentabilidade da UCLA. — Falei com dúzias de especialistas em fogo e em clima nas últimas 48 horas, e quase todo mundo está sem palavras. Certamente não há nada na memória viva nesta escala.

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Fonte: O Globo

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