
25/08/2020
O projeto Flora do Brasil 2020, que será encerrado este ano, continua rendendo novas descobertas. O esforço conjunto, que desde 2010 reuniu quase mil taxonomistas de 200 diferentes instituições, viabilizou o novo sistema online, que integra a Lista de Espécies da Flora do Brasil e o Herbário Virtual Reflora. O objetivo do projeto é mostrar a real situação das espécies de plantas que compõem a flora brasileira e seu grau de ameaça. Um dos pesquisadores que integra essa equipe é o jovem biólogo Pedro Henrique Cardoso, que após o mestrado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) veio para o Rio de Janeiro cursar o doutorado em Botânica no Museu Nacional, que além de ser repositório de importantes coleções de História Natural, é também uma unidade de pesquisa ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Entre as novas espécies descobertas pelo pesquisador, há uma planta da família Verbenaceae, do gênero Lippia, que foi nomeada em homenagem ao líder indígena Ailton Krenak. O artigo foi publicado no início de agosto em edição virtual da revista científica Phytotaxa e contou com a participação dos pesquisadores Fátima Salimena, Vanessa Valério e Luiz Menini Neto (UFJF) e de Marcelo Trovó, da UFRJ. A Lippia krenakiana é uma espécie endêmica da Cadeia do Espinhaço, uma região montanhosa que vai da Bahia até Minas Gerais, formada principalmente por campos rupestres, sob influência do Cerrado, Mata Atlântica e a Caatinga. Em risco de extinção, a nova espécie é um pequeno arbusto aromático, como a maioria das Lippia, com pequenas flores róseas reunidas em inflorescências que possui um sistema subterrâneo que a protege do fogo comum nos campos rupestres.
“A homenagem a Ailton Krenak exalta a importância dos povos indígenas na preservação da nossa biodiversidade. Diante de tantos retrocessos, devemos nos manter firmes na luta, afinal, como bem disse o próprio Krenak, ‘Não estamos sem esperança, estamos diante de um desafio. Ou honramos a vida aqui no planeta ou renunciamos à vida’”, explica Cardoso. Para ele, “indígenas são raízes, e raízes dão flores”.
O líder indígena Ailton Krenak é doutor honoris causa pela UFJF, Grão-Cruz da Ordem do Mérito Cultural. Nascido no Vale do Rio Doce e hoje morador da Serra do Cipó, ambas as regiões em Minas Gerais, o ambientalista e escritor foi fundador do Núcleo de Cultura Indígena. Em 1987, durante a Assembleia Constituinte, Krenak protagonizou uma cena que ganharia notoriedade em todo o País, quando, durante seu discurso na tribuna, pintou o rosto com tinta preta de jenipapo em protesto contra os retrocessos nos direitos dos índios brasileiros.
Outra planta descoberta pelo biólogo, desta vez no Parque Nacional das Emas, no sudoeste de Goiás, foi batizada de Lippia stachyoides var. guajajarana, que homenageia a militante indígena maranhense Sônia Guajajara. Formada em Letras, Enfermagem e especialista em educação especial, Sônia foi lançada como pré-candidata a vice-presidente numa das chapas que concorriam ao pleito eleitoral de 2018. Constam ainda, na coleção de Pedro Cardoso, outras espécies novas descritas como Lantana caudata, Stachytarpheta kriegeriana, Stachytarpheta sobraliana, Stachytarpheta grandiflora, Stachytarpheta tomentosa, Lippia mantiqueirae, Lippia diversifolia, além da ainda não descrita Lippia raoniana, que homenageia outra importante liderança indígena, o cacique Raoni, da etnia caiapó, conhecido internacionalmente por sua luta pela preservação da Amazônia e dos povos indígenas.
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