
11/08/2020
O Rio de Janeiro não tem apenas um Pão de Açúcar, um dos cartões-postais da cidade maravilhosa. Há pelo menos outros quatro pontos turísticos que se enquadram nessa nomenclatura característica desse tipo de formação rochosa: o mundialmente conhecido Corcovado, a Pedra da Gávea e o morro Dois Irmãos. Essas rochas de granito, castigadas e moldadas pelo sol, pela chuva e pelo vento, vão ganhando contornos arredondados que lembram seios femininos. Historiadores atribuem a origem do nome pão de açúcar aos colonizadores portugueses que transportavam o açúcar em fôrmas cônicas, assim como as usadas para produzir pão.
Denominados inselbergs (insel = ilha e berg = montanha) pelo geólogo alemão Wilhelm Bornhardt, são chamados “pão de açúcar” quando apresentam formato arredondado. Posteriormente, geólogos, geógrafos e biólogos estenderam o uso do termo – pães de açúcar – aos afloramentos rochosos arredondados inseridos na Mata Atlântica, geralmente de composição granítica e gnáissica. Distribuídas por diversos biomas, essas ilhas terrestres, por proporcionarem uma limitada presença e intercâmbio de espécies, possuem flora e fauna únicas, adaptadas ao isolamento dessas montanhas.
Desde jovem a pesquisadora Luiza de Paula foi atraída por essas formações, bastantes comuns no Vale do Mucuri, onde está localizada Teófilo Otoni, sua cidade natal, no Nordeste de Minas Gerais. Durante sua graduação, a curiosidade a respeito do tipo de vegetação que poderia existir naquelas formações rochosas além de cactos aumentou. Alguns professores achavam que não haveria nada de interessante; outros a incentivaram a iniciar incursões na Pedra de São Francisco, localizado em uma fazenda de um amigo de seu pai na região. Assim, quando concluiu o curso de Biologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2011, sua monografia foi o inventário florístico daquele inselberg. “Foi uma grande revelação, pois lá descobrimos 10 espécies novas para a ciência e cinco registros novos [quando a espécie já foi descrita, mas não naquele local] para o estado de Minas Gerais”, comemora a botânica.
Segundo Luiza, dessas novas espécies, todas endêmicas de inselbergs de Minas Gerais e Espírito Santo, sete já foram descritas em artigo científicos, das quais três ela participou da descrição: Axonopus graniticola, uma espécie de capim que só ocorre em afloramentos de granito; Anthurium mucuri, planta da família Araceae, uma espécie da mesma família do Imbé, muito ornamental, que ocorre apenas em inselbergs do Vale do Mucuri; e Solanum hydroides, espécie da mesma família do tomate e da batata, que ocorre sempre associada às matas que crescem sobre os inselbergs, cujo nome "hydroides" remete à semelhança de seus espinhos com a hydra, um animal aquático. As quatro demais espécies descritas por outros taxonomistas são a Bradea borrerioides, da família Rubiaceae (a mesma do café); Pleroma marinana, da mesma família da quaresmeira; Serpocaulon demissum, uma espécie de samambaia; e Scleria didina, da família Cyperaceae, uma espécie graminiforme, ou seja, semelhante às gramíneas. Duas outras espécies de Myrtaceae (mesma família da goiaba e jabuticaba) e uma espécie de Apocynaceae, da família da rosa-do-deserto, estão em processo de descrição.
A reportagem na íntegra pode ser lida no site da Faperj
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