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Pesquisadores testam se há risco de contaminação por coronavírus através do esgoto no Morro Santa Marta, em Botafogo

28/07/2020

Um projeto encabeçado por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e com apoio de uma equipe de voluntários que, desde o início da pandemia, ajuda a sanitarizar as ruas e vielas do Morro Santa Marta, em Botafogo, pretende descobrir em breve se há risco de contaminação de moradores pelo ar em função da presença de coronavírus no esgoto a céu aberto, que jorra em favelas como esta, onde a disponibilização é íngreme. Nesta segunda-feira, os equipamentos foram instalados para captar as substâncias presentes no ar, e hoje devem ser colhidos para análise.
– O coronavírus foi encontrado no esgoto do mundo inteiro, inclusive no Brasil. A grande questão é que nas favelas há a particularidade de as áreas serem muito íngremes, em encostas de montanhas e sem saneamento básico, então quando o esgoto é lançado a céu aberto ele faz como se fosse uma cachoeira e essa turbulência gera um borrifo, como se fosse um spray. Nosso objetivo é saber se esse processo pode ser uma via de transmissão ou não. Se for, é algo que pode estar sendo muito crítico, já que a pessoa pode estar em casa, onde naturalmente ela anda sem máscara, e se contaminar – conta o professor Heitor Evangelista, do Departamento de Biofísica da Uerj, que lidera o estudo.
Thiago Firmino, ativista local, líder comunitário, e que desde abril lidera uma equpe de voluntários que ajuda a manter mais limpas as ruas e vielas da comunidade através de vaquinhas e doações, conta que descobriu o trabalho do professor Heitor quando conheceu o "coronatracking", uma invenção do pesquisador, basicamente um acessório que permite detectar o coronavírus no ar em qualquer lugar. Ele diz que, na hora, pensou em chamá-lo para para ajudar a concretizar ainda mais seu projeto.
– Eu entrei em contato com o professor depois que conheci o aparelho que ele criou, o “coronatracking”, que permite detectar o coronavírus no ar. Achei muito legal e chamei ele para fazer este trabalho de pesquisa aqui no Santa Marta. Eu conheço vários casos aqui de pessoas que não saíam de casa, tomavam todos os cuidados, e mesmo assim pegaram a doença dentro de casa. O Santa Marta conta com um sistema de esgoto arcaico desde sempre, e os moradores vivem constantemente com o problema da falta de água – conta Thiago, que tem uma empresa de turismo e desde o início da pandemia, mesmo desempregado, ajuda a manter a comunidade limpa.
Foram instalados ontem no morro três equipamentos diferentes e em locais diferentes: um frasco de vidro chamado de biosampler que aumenta a eficiência da captura do vírus, um sistema automático que se assemelha a uma placa de petri com bombeamento de ar, que faz com o que o ar ambiente seja capturado, onde fica acumulado por 24 horas, e um outro sistema de filtros em peneiras, que permite capturar aerossóis dos mais variados tamanhos.
– Tudo que envolve a Covid é projeto piloto. É como trocar a roda com o carro andando. Se encontrarmos algo será muito importante, levaremos aos governantes e, ao mesmo tempo, aprenderemos, pois tudo nessa área é aprendizado. Tudo que descobrirmos hoje será válido também para outros tantos vírus importantes que existem por aí. Esse projeto só é possível por causa da união universidade e comunidade. Nesse momento eles estão cuidando dos equipamentos. A gente leva a tecnologia para eles e eles dão conta do recado – concluiu o professor.
De acordo com Heitor, nesta terça-feira essas amostras serão retiradas pela manhã e, em seguida, irão aos laboratórios da Uerj e ao Hospital Universitário Piquet Carneiro onde serão analisadas.
Por fim, o líder comunitário Thiago Firmino acrescentou a importância das descobertas que podem vir da pesquisa: uma pesquisa feita pelo seu grupo na comunidade, dá conta de que 50% dos moradores já tiveram algum dos sintomas da Covid-19 desde março.
– Numa pesquisa que fizemos aqui na comunidade, 98% dos moradores aprovaram o nosso projeto de sanitização e disseram já ter sido contemplados. Todos relataram que ficam sem água entre 1 a 7 dias por mês. E, o mais preocupante, 50% disse ter tido algum dos sintomas do coronavírus durante todo este período.

Fonte: O Globo

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