
16/07/2020
A caça ilegal de felinos selvagens na América Latina pode ter sido facilitada pelo crescimento do investimento chinês, aponta estudo internacional liderado por pesquisadora brasileira.
No artigo, publicado na revista científica Conservation Biology, os cientistas avaliaram apreensões de caça ilegal desses animais divulgadas na mídia em cinco idiomas —português, holandês, inglês, espanhol e mandarim— entre 2012 e 2018.
As mercadorias eram originárias de dezenove países da América do Sul e Central e incluíam principalmente onças-pintadas (Panthera onca), mas outros felinos, como jaguatiricas (Leopardus pardalis) e pumas (Puma concolor), também foram encontrados.
Nos países envolvidos, 34% dos contrabandos tinham como destino final a China, e o número de indivíduos por apreensão era quatorze vezes maior do que normalmente é confiscado no tráfico local.
A maior parte das apreensões era composta de partes do animal, como cabeça, patas e dentes.
“Notamos que havia um padrão, pois normalmente nas caças relacionadas ao tráfico local ou quando os animais são mortos por conflito são encontradas carcaças inteiras. Começaram a surgir notícias de felinos decapitados ou sem patas a partir de 2014, principalmente na Bolívia”, explica Thaís Morcatty, bióloga e principal autora do estudo.
Morcatty estudou em seu mestrado a caça e o comércio regional de animais na Amazônia, com foco para o mercado doméstico. Agora, em sua pesquisa de doutorado em antropologia na Universidade de Oxford Brookes, buscou ir além e entender as relações da caça ilegal para tráfico internacional na América do Sul.
Como esse padrão fugia do observado com o comércio local, a hipótese de Morcatty e seus colaboradores era de que essas partes de felinos substituiriam tigres e leões no mercado de países asiáticos.
Tradicionalmente, ossos de tigres e leões são comercializados na Ásia para uso na medicina tradicional. Essa demanda já foi apontada como um dos fatores que levaram à redução drástica das populações de tigres no mundo, hoje com cerca de 4 mil indivíduos na natureza.
Já os dentes e as peles são usados em artigos de decoração, luxo e criação de joias. A procura por outros grandes felinos foi evidenciada já nos anos 1990, quando começaram a ser reportadas as primeiras apreensões de caninos de onças na China.
“Observei que existiam muitas apreensões e que eram maiores em alguns países do que outros. Uma das nossas hipóteses pretendia justamente testar as correlações entre essas apreensões e o tráfico ilegal chinês, uma vez que no país asiático já tinham sido reportadas partes de onças confiscadas.”
Embora não houvesse informações muito claras para o tráfico de partes de animais, os pesquisadores se basearam no conhecimento prévio para o tráfico de armas, drogas ou pessoas, que indicava um aumento do tráfico ilegal quando havia um mercado legal estabelecido.
“Se um país não tem investimento chinês e recebe dinheiro da China, a aduana pode suspeitar de algo. Mas se já existe um mercado que favorece o fluxo de milhões anualmente, esse valor extra do tráfico ilegal pode passar despercebido”, diz.
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