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Agricultura no telhado: uma necessidade em Cuba durante a pandemia

16/07/2020

Yank lembra que, na crise dos anos 90 em Cuba, seu padrasto viajou longas distâncias de bicicleta para "resolver" o problema dos alimentos. Três décadas depois, quando a pandemia ameaça a economia do país, ele aplica sua fórmula: planta os vegetais em seu terraço.
— A ideia de plantio urbano vem dos problemas que o país e o mundo têm, com a economia e com toda essa situação do coronavírus — conta Yank Benavente, um artista de 38 anos que está sem trabalhar após as atividades turísticas terem sido paralisadas por causa da pandemia.
Para a mini-horta, ele usa material reciclado: azulejos franceses que resgatou de uma construção demolida — e que servem para delimitar as plantações — em um telhado cercado por edifícios dos anos 50, no bairro do Vedado, na cidade de Havana.
Enquanto a agricultura urbana é uma moda passageira na Europa ou nos países desenvolvidos, em Cuba é uma necessidade. Quase toda a produção agrícola se reduziu no país em 2019: os problemas climáticos e a demora nas reformas do sistema socialista impedem seu avanço.
"Os fatores que causam a crise já existiam antes da pandemia" relata o economista cubano Pedro Monreal, no Twitter.
A ilha importa quase toda a comida que sua população consome. Só no ano passado foram gastos US$ 2 bilhões para isso. A economia do país é impulsionada pelo turismo e, embora Cuba esteja controlando o surto do novo coronavírus, passou mais de três meses sem que o setor gerasse recursos por causa da interrupção das viagens.
Um relatório diplomático garante que Cuba está "com os menores rendimentos em termos de produção agrícola" entre os países latino-americanos, com perdas de quase 57% dos alimentos produzidos. O governo pediu aos cidadãos que promovam a agricultura urbana e que se preparem para tempos mais difíceis.
— Nossa reserva, nosso potencial, está no que podemos produzir — disse o ministro da Economia, Alejandro Gil.
Yank produz alface, acelga, pepino e tomate e está tentando convencer seus amigos a cultivar também, para todos comercializarem os alimentos.
Ele também lembra que, em 1994, durante o chamado "período especial", após a queda da União Soviética, a falta de alimentos obrigou seu padrasto a ir aos campos em busca de vegetais para alimentar a família.
— O problema atual é mundial. Se não houver uma solução em breve, suponho que poderá ser pior do que em 1994 — opina.
— A agricultura urbana nasceu (em Cuba) no período especial, quando as pessoas precisavam de outras alternativas para conseguir alimento. E nesse contexto de dificuldade na produção de alimentos, o país prioriza a agricultura urbana para responder — explica, à AFP, o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura em Cuba, Marcelo Resende.
Apesar de grande parte das terras cubanas pertencerem ao Estado, o governo a concede a cooperativas e pessoas, que colhem mais de 80% do total de alimentos produzidos no país, mas que são capazes de suprir apenas 20% da demanda.
Yoandra Álvarez começou a trabalhar com agricultura urbana nos anos 90, nos arredores de Havana. Tudo começou com um terreno baldio que foi recuperado. Atualmente, ela possui mais de cem árvores frutíferas e trabalha em uma mini-indústria no processamento de frutas, sorvetes e geleias. Seu negócio é considerado referência na área.
— É muito interessante. As pessoas estão começando a ver a beleza de uma plantação de alface, talvez até antes de plantar uma rosa, o que é muito bom. Mas agora estamos combinando a plantação de hortaliças com ornamentais — explica Yoandra, 49 anos.
Devido à falta de adubos e fertilizantes químicos, difíceis de importar por não haver financiamento e também pelo bloqueio dos Estados Unidos, os cubanos criaram técnicas naturais que mantêm seus solos limpos — embora exijam tecnologia.
— É verdade que a agricultura urbana, como qualquer processo, precisa ser aperfeiçoada. É necessário melhorar o acesso às sementes, a questão da água, e é nisso que estamos trabalhando — diz Resende.
Outro que começou nos anos 2000 foi Jesús Sánchez, permacultor — um trabalho que combina agricultura e equilíbrio ambiental. Em seu jardim, ele usa pneus e garrafas velhas como cercas, além de criar coelhos e galinhas.
— Não precisamos sair para procurar temperos aqui. Também temos abóbora, mandioca e batata doce, que são usadas para consumo — explica ele.
E a chave do sucesso é compartilhar:
— Quando colhemos mangas, damos a todos. Quando tem abóbora, cortamos e distribuímos seus pedaços.

Fonte: O Globo

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