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Sossego na quarentena pode ter encorajado onça-parda a sair de floresta para dar passeio em Barra de Guaratiba

14/07/2020

A rainha da selva voltou ao Rio de Janeiro. Protegida pela madrugada de 30 de junho, antes de o sol nascer e quando a lua já tinha se recolhido, ela fez uma breve aparição em Barra de Guaratiba. Expulsa pela urbanização e a caça, a onça-parda não era registrada na cidade há quase um século — a última vez teria sido em 1936. Desta vez, o passeio foi flagrado por uma câmera de segurança do Sítio Burle Marx e fez sucesso nas redes sociais.
— O registro é um marco para a cidade, uma visão que não se tinha há quase cem anos. Um motivo para celebrar em meio a tanta tristeza da pandemia. A volta da onça é boa notícia para a conservação e para o turismo. O Rio agora é a única metrópole do mundo com um registro de onça. Florestas urbanas assim são um privilégio — afirma o biólogo Izar Aximoff, autor de estudos pioneiros sobre a fauna urbana do Rio e o primeiro a se mobilizar para encontrar a onça-parda ou suçuarana de Guaratiba.
Aximoff instalou armadilhas fotográficas em possíveis rotas do felino e torce por um novo flagrante. Foi ele quem alertou que o gatão avistado no Flamengo, em maio, não era uma suçuarana, como muitos pensaram, mas um gato doméstico. Desta vez, viu de imediato que se tratava de onça verdadeira. Como outros especialistas, especula como o animal surgiu e para onde teria ido.
O biólogo Claudio Maas, responsável técnico de Biologia do BioParque do Rio (o novo centro de conservação que substituirá o antigo zoológico do Rio), considera o aparecimento de uma onça uma ótima notícia.
— É um alento para a conservação e mostra que o Rio tem florestas que merecem ser conhecidas, o que é ótimo para o turismo. Essa onça é um patrimônio da cidade — destaca Maas.
Apesar de selvagem, a onça-parda é inofensiva. “Muito medrosa”, nas palavras de Armando Magalhães Corrêa em “O Sertão Carioca”, a mais importante obra histórica sobre as florestas cariocas do início do século XX. É dele o último registro da suçuarana na cidade, diz Aximoff.
Maas frisa que a suçuarana é parente mais próximo do gato doméstico do que da onça-pintada e não oferece risco à população. Segundo ele, não há registro na história de ataque de suçuaranas a seres humanos na América do Sul. Os pumas, com ataques nos EUA, são de outra subespécie, mais agressiva.
— São gatões, arredios. Selvagens, porém, não agressivos. O único risco é agredi-los — observa.
Assim como os golfinhos flagrados nos canais de Veneza após décadas de ausência, a onça pode ter se encorajado a dar um passeio na cidade com a redução da agitação humana causada pela quarentena da pandemia de coronavírus. Teria chegado pelas florestas da Pedra Branca, buscando expandir o território.
A hipótese é considerada plausível pelo biólogo do Inea João Rafael Marins e pelos biólogos da Fiocruz Mata Atlântica Ricardo Moratelli e Iuri Veríssimo, que realizam pesquisas na região do Maciço da Pedra Branca, que compreende Guaratiba.
Ela poderia ter vindo das matas de Mangaratiba, atravessando trechos urbanos desertos devido à pandemia. Ou do vizinho Maciço do Mendanha, onde biólogos já registraram pegadas características de suçuaranas, segundo Aximoff. Distâncias como 40 quilômetros não são nada para uma suçuarana. E toda a região tem animais que ela caça, como paca, tatu, quati, jacaré e capivara.
— O maior obstáculo para a onça é o homem. O silêncio da pandemia pode ter deixado a onça confiante para explorar o antigo território. Torcemos para que fique. Ter uma floresta urbana capaz de abrigar a rainha da selva é um privilégio para o Rio — salienta Marins.
Opinião semelhante têm Moratelli e Veríssimo. Nas matas da Fiocruz Mata Atlântica já foram feitos registros de outro felino selvagem , o gato-do-mato (Leopardus guttulus). São flagrantes raros que mostram que, no Rio, a natureza, apesar de todos os problemas, resiste. O felino, que parece uma oncinha, também já foi registrado no Parque Estadual da Pedra Branca pelo biólogo Felipe Tubarão.
Outra hipótese é que a suçuarana seja de uma população isolada no Maciço da Pedra Branca, onde está a maior floresta urbana do mundo, título erroneamente atribuído à da Tijuca, três vezes menor. Tubarão, profundo conhecedor da região, considera essa chance quase impossível devido à pressão humana.
Também não foi descartada a chance de ser um animal fugido de algum criadouro, mas essa hipótese é considerada menos plausível. Aximoff chegou a investigar, mas não encontrou indícios. Em Guaratiba, donos de restaurantes fechados devido à pandemia se animam com a possibilidade de atrair turistas. Vizinho do local da aparição, Maurício Bezerra imagina que a onça tenha descido por uma trilha que vem da mata, cuja entrada é fechada para impedir invasões de capivaras.
A preocupação geral é proteger a onça de caçadores, comuns no Rio, ao contrário dos animais selvagens. O Inea prepara um material educativo. Magalhães Corrêa já alertava que, sem o rigor do combate, a caça transformaria “a terra carioca em deserto”. Os pesquisadores continuam a investigar a onça e torcem para que outras venham para a terra onde eram comuns.
— Imagine estar numa floresta habitada por animais magníficos como os felinos selvagens, é história para uma vida toda. O Rio tem isso misturado à agitação de uma metrópole — enfatiza Marins.

Fonte: O Globo

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