
02/06/2020
Cercada de plantios de soja por todos os lados, a Chácara João do Mel, em Belterra, no oeste do Pará, é como uma ilha de biodiversidade que ainda reflete a natureza amazônica em um cenário formado por áreas desmatadas a perder de vista.
Apesar da expressão de resistência ecológica, o pequeno oásis pertencente a João Batista Ferreira já sofre os efeitos do modelo de monocultura regada a agrotóxicos em larga escala. Esse e outros impactos socioambientais têm sido cada vez mais associados ao extermínio de abelhas e, consequentemente, à inviabilidade da produção de mel como atividade econômica desse município que integra a Região Metropolitana de Santarém, a 724 km de Belém.
Aos 59 anos, Ferreira passa por uma mudança de rumo profissional jamais imaginada para quem transformou um hobby, aprimorado desde a adolescência, em um bem-sucedido negócio de meliponicultura (cultivo de abelhas nativas sem ferrão) que o tornou conhecido regionalmente como João do Mel.
Ele recorda que há 20 anos tinha mais de mil colmeias, abrigadas em caixas de madeira padronizadas que foi aprendendo a confeccionar a partir dos 17 anos. Estrategicamente espalhadas pela propriedade de 16 hectares, cada uma chegava a ter de 80 mil a 100 mil abelhas jataí, jandaíra e outras espécies nativas.
Conhecedor dos nomes científicos e principais hábitos das abelhas, o ex-produtor diz que as chamadas de canudo (ou tucano) eram campeãs de produtividade.
E acrescenta que o agronegócio mudou o comportamento e a dinâmica de reprodução desses polinizadores. "Quantas vezes encontramos caixas completamente vazias ou enxames mortos." Assim, o sonho de manter essa atividade comercial ruiu completamente depois de 40 anos.
Com cerca de 100 caixas que restaram na chácara, João do Mel admite que naquele “cemitério de colmeias” jaz a meliponicultura como atividade de reconhecida importância socioeconômica e ambiental.
As pequenas quantidades de abelhas que resistem precisam se alimentar do próprio mel produzido nas últimas colmeias que ele mantém somente para nutri-las. "Se tirar o mel o enxame se acaba", explica, acrescentando que além da redução da quantidade de áreas de florestas e, consequentemente, das floradas das quais dependem esses e outros polinizadores, a situação piora na temporada de chuvas intensas na Amazônia.
Como outro reflexo do desequilíbrio ecológico regional, o ex-produtor menciona que não faltam, ainda, as investidas de tamanduás que, ao farejarem a presença de abelhas, muitas vezes rompem as tampas das caixas em busca das colmeias que restam.
A matéria pode ser lida na íntegra no G1
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