
05/05/2020
Uma cama, uma caixinha de som, 25 livros e 13 vasos de plantas. Isso é tudo que a filósofa Bia Salomão, de 31 anos, tem no apartamento para o qual se mudou há pouco mais de um mês. Com as recomendações de isolamento para quem pode ficar em casa em função do coronavírus, ela, que trabalha no setor de marketing de uma empresa, ainda não conseguiu concluir a ocupação do novo endereço com móveis e eletrodomésticos. Ainda assim, sente-se bastante confortável.
— A presença de seres vivos à minha volta é mais importante do que ter um monte de panelas e copos — afirma Bia, em referência às plantas, uma prioridade na hora da mudança. — Gasto pelo menos 20 minutos do meu dia regando, cuidando e conversando com elas. Sou muito apaixonada por natureza. É uma maneira de trazê-la para dentro de casa.
Bia não está sozinha. Antes da pandemia, o cultivo de plantas vivia um boom entre moradores de grandes centros urbanos, num fenômeno que até recebeu a alcunha de urban jungle (floresta urbana), definição para o uso de vegetação na decoração de imóveis. O mesmo quadro também fez despontar a figura dos plant influencers, como são conhecidos os entusiastas dessa tendência nas redes sociais.
Com o confinamento, essa onda verde ganhou ainda mais força. Proprietária da Pólen Flores e Plantas, Eduarda Ribeiro estava acostumada a atender principalmente bares e restaurantes com seus arranjos de flores. Porém, devido ao fechamento desses estabelecimentos, os pedidos cessaram, e a empresária resolveu mostrar seus trabalhos nas redes sociais. Os pedidos logo apareceram.
— Boa parte das plantas fazia parte do meu acervo, nem era meu foco vendê-las — conta, acrescentando que a costela-de-adão é o hit da vez. — Acho que as pessoas estão passando mais tempo em casa e querem se sentir acolhidas nesse espaço. Antes, muita gente achava que não teria tempo para cuidar do verde. Agora, isso mudou.
Para o administrador Joabe Silva, de 50 anos, que trabalha em home office, o tempo dedicado às plantas é sagrado. Ele tem cerca de 50 vasos no apartamento de 45 metros quadrados onde vive, e, durante a quarentena, aproveitou para descobrir novas maneiras de adubá-las, como bater casca de banana com berinjela, coar e usar o caldo sobre a terra.
— O cuidado com elas me ajuda a passar o tempo — comenta. — Além disso, em frente ao meu apartamento há uma floresta que pode ser vista pela janela. Com as plantas dentro de casa, é como se essa vegetação chegasse até mim.
Ao que tudo indica, ele está coberto de razão. Segundo Fabrício Feydit, psicoterapeuta e permacultor (especialista em sistemas de design para a criação de ambientes sustentáveis e produtivos em harmonia com a natureza), estudos ao redor do mundo comprovam os efeitos positivos das plantas sobre as pessoas.
— A história da Humanidade sempre foi rodeada por árvores — ressalta. — Há comprovações de que passeios em bosques podem gerar reações bioquímicas e ondas cerebrais que nos fazem entrar num estado de relaxamento, o que tem reflexos sobre os batimentos cardíacos. Também há pesquisas que mostram como o contato com plantas nos ajuda nos quadros depressivos.
Para quem está angustiado com o isolamento, Fabrício afirma que começar plantando sementes de alimentos ou hortaliças pode ser um bom exercício para a mente:
— Ver como parte daquilo que está nos nutrindo pode ser cultivado e colhido mais tarde é um jeito de observar a continuação da vida.
Algumas pessoas já entenderam isso. Na Chácara Fitoplantas, a procura por temperos, hortaliças e frutíferas aumentou 30% desde o início das recomendações de isolamento no Brasil.
— As pessoas estão se preparando para produzir seus próprios alimentos, nem que seja de maneira inconsciente. Eu nunca vendi tantos temperos e sementes — conta o proprietário do negócio, Andrei Lopes.
A professora Tatiane Seixas, de 37 anos, é uma dessas clientes. Ela montou uma horta com duas jardineiras e dois vasinhos na semana passada. Plantou orégano, salsa, cebolinha, hortelã, alface, rúcula e tomate.
— Tenho pedido para entregar as compras em casa, mas esses alimentos mais perecíveis são difíceis de comprar desse jeito. Então, resolvi plantar. Já estou até colhendo a cebolinha — diz a professora.
Desde o início da quarentena, a criadora do Wabi-Sabi Ateliê, especializado em plantas e terrários, Laura Sugimoto, já recebeu pedidos como o de uma cliente interessada em repetir em casa a decoração com plantas de seu escritório, numa busca por um home office mais agradável. Diante de demandas do tipo, ela acaba de lançar um serviço de consultoria remota, pelo qual produz guias personalizados para quem deseja dar um toque de natureza à casa neste momento. O material fica pronto em cinco dias.
- Conversamos com os clientes e recebemos fotos para entender as características do local, assim como o estilo das pessoas que vivem ali. Depois, enviamos um guia com orientações, unido vegetação adequada e decoração.
Para quem já quer começar logo, Laura tem algumas dicas para evitar a frustração com as folhas. No caso dos iniciantes, ela diz valer a pena começar com as espécies mais fáceis de cuidar. E aqui vão quatro delas: jiboia, zamioculca, chamaedorea e espada-de-são-jorge.
- Também é importante observar a iluminação do espaço e deixá-las o mais próximo possível da janela, já que dificilmente as plantas sobrevivem em locais muito sombreados - salienta.
Outra recomendação feita por Laura diz respeito a uma observação criteriosa quanto às necessidades de cada exemplar. Uma das mais básicas é a hidratação. Para isso, basta por o dedo na terra para ver se está úmida ou seca.
Tornar a casa mais verde pode ser mais fácil do que parece.
Fonte: O Globo
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