
28/04/2020
Apesar da baixa densidade demográfica e das longas distâncias entre as comunidades mais remotas do interior da Amazônia, pesquisadores estão preocupados com a falta de preparo da região para responder à pandemia do coronavírus.
Em artigo enviado com exclusividade ao blog, os cientistas mapeiam os desafios da Amazônia para lidar com a pandemia e fazem um alerta: a distância que impede comunidades remotas de acessar o sistema de saúde não as protege da ação de invasores.
“Os vetores de degradação da floresta são os mesmos que têm favorecido a disseminação silenciosa do vírus”, diz o texto, subscrito pela Coalizão Ciência e Sociedade e de autoria conjunta de Joice Ferreira (Embrapa Amazônia Oriental), Erika Berenguer (Universidades de Oxford e Lancaster), Ima Vieira (Museu Emílio Goeldi), Mercedes Bustamante (Universidade de Brasília) e Thiago Medaglia (MIT).
Confira abaixo a íntegra do artigo.
A vulnerabilidade das populações do interior da Amazônia à Covid-19
Há motivos de sobra para preocupar-se com a Covid-19 no Brasil, mas a sua rápida escalada na região amazônica merece atenção especial. Diferenças regionais e singularidades da dinâmica social a colocam em situação particular de vulnerabilidade.
Não por acaso, o primeiro colapso do sistema de saúde no Brasil ocorreu justamente em Manaus, a maior e mais afluente cidade da Amazônia. No mesmo dia em que, no Distrito Federal, o ministro da Saúde, Nelson Teich, declarava que “o Brasil é um dos países que melhor tem performado em relação à Covid”, as imagens de valas comuns abertas em Manaus para acomodar as vítimas fatais da pandemia rodavam o mundo.
O colapso precoce em comparação às demais capitais brasileiras, configurado pelo déficit de leitos e respiradores disponíveis à população manauara, não é mera coincidência e, tudo indica, poderá em breve ser acompanhado de situação semelhante em Belém (PA) e Macapá (AP).
A verdade é que o Sars-Cov-2, o vírus que causa a Covid-19, encontra na Região Norte os piores índices de infraestrutura hospitalar e serviços médicos do país. O efeito imediato: a região já ultrapassou qualquer outra no Brasil em número de casos confirmados da doença por milhão de habitante.
Mas, para além do acesso precário à saúde, a capacidade de prevenção e de recuperação da população local à pandemia é preocupante. Todos os indicadores socioeconômicos regionais do Brasil apresentam seus valores mais baixos na Amazônia, onde 48% da população vivia com até meio salário mínimo per capita em 2017 e 82% da população tem restrição a serviços de saneamento básico. A dependência do conturbado governo federal é, portanto, maior do que em outras regiões com melhor capacidade de resposta.
A gravidade de pobreza das famílias amazônicas, aliada a aspectos culturais, pode favorecer a propagação da Covid-19 nas comunidades interioranas. Ainda que a região amazônica como um todo não seja densamente povoada – hoje há cerca de 20 milhões de habitantes – não é incomum que vilas e povoados tenham densidade populacional alta. Nestes locais, também é usual encontrar famílias constituídas por membros de diversas gerações compartilhando casas precárias com um ou dois cômodos.
Estes agrupamentos são baseados em interações sociais intensas e centrais à vida comunitária, muitos com ligação forte com os centros urbanos mais próximos, o que demanda deslocamentos relativamente rotineiros até cidades e aglomerações, às vezes em embarcações lotadas e enfrentando extensas filas, não apenas para acesso à saúde e medicamentos, mas também para a comercialização da produção agroflorestal, aquisição de alimentos, itens industrializados, combustível para embarcações e recebimento de benefícios previdenciários e assistenciais.
Para ler o final deste artigo, acesse a Folha de S. Paulo
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