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Mar transparente no Rio tem a ver com fenômenos astronômicos e meteorológicos, e não com quarentena

16/04/2020

Águas cristalinas, a ponto de permitir a observação de tartarugas. Nos últimos dias, as praias do Rio ficaram paradisíacas. E, claro, vazias. Mas o mar limpo nada tem a ver com a quarentena por causa do novo coronavírus: na verdade, é uma conjunção de fenômenos meteorológicos e astronômicos. A entrada de uma frente fria na semana passada e a sobrelevação da maré por causa da lua cheia - a chamada maré de sizígia - estão por trás da água limpa, especialmente na Baía de Guanabara.
Em redes sociais e grupos de WhatsApp, viralizou um vídeo mostrando o mar transparente com tartarugas e peixes próximo ao Aeroporto Santos Dumont - que teria sido gravado na semana passada -, que deixou muita gente com saudades das praias do Rio. O Arpoador hoje lembrava um dia de sol no Caribe, só que sem ninguém. A água continua clara em decorrência da renovação ocorrida nos últimos dias na Baía.
— Houve uma sobrelevação extraordinária do nível do mar que se somou à entrada de frente fria. Ultimamente, as frentes frias seguem a tendência de virem do mar, provocando ventos em direção ao continente. Esses fatores fazem com que na boca da Baía entre uma quantidade grande de água limpa, promovendo uma renovação no seu interior. Por isso, isso essa transparência em praias como a do Flamengo e de Icaraí, em Niterói, que mostra a força que a natureza tem na recuperação dos ecossistemas costeiros — explica o oceanógrafo David Zee, professor da Uerj, ressaltando:
— A quarentena nada tem a ver com isso. O que ela faz é permitir a reflexão diante desse fenômeno: se fizermos a nossa parte, se poluirmos menos, podemos ter praias assim, maravilhosas.
Ele acrescenta que esgoto e lixo são os causadores da poluição nas praias. Caso chova forte nos próximos dias, há o risco de a água do mar voltar a ficar turva por causa da sujeira que chega à Baía pelos rios e canais.
Também professora da Uerj, a oceanógrafa Claudia Hamacher via nesta quarta-feira o mar paradisíaco do Leblon pela janela do apartamento da sua mãe: ela reforça que o isolamento social não tem ligação com o fenômeno na orla do Rio e de Niterói.
— Estamos em dias sem chuvas, com aporte menor de sujeira vindo para o mar. E isso se associa ao período de maré bem alta, que está trazendo água bem limpa de fora da Baía de Guanabara. As fotos que temos visto foram tiradas com a maré enchendo, quando há menos lixo — afirma Claudia.
De acordo com ela, há a possibilidade de animais como tartarugas e golfinhos ficarem mais visíveis nesse período de quarentena por causa da baixa circulação de embarcações.
— Isso é positivo para eles, porque diminui a poluição sonora e o revolvimento do fundo, criando condições mais propícias para essas espécies aparecerem. Porque as embarcações afugentam esses animais — diz a professora, explicando que ainda não é possível afirmar se houve decréscimo no despejo de esgoto industrial na Baía a ponto de, daqui para frente, interferir na qualidade da água.

Fonte: O Globo

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