
11/02/2020
A Grande São Paulo viveu um dia de caos ontem (10/2). Mais uma vez, a estrutura da cidade não suportou o grande volume de chuvas que atingiu a região.
Houve centenas de pontos de alagamento, ruas e avenidas intransitáveis, pessoas ilhadas em carros e ônibus. Linhas de trens ficaram paradas, houve deslizamentos e o transbordamento dos dois principais rios que cortam a capital paulista, o Pinheiros e o Tietê.
O Corpo de Bombeiros atendeu a mais de 4 mil chamados desde a noite de domingo, entre eles sete desabamentos, 132 pontos de inundação, 25 árvores caídas e 17 vistorias de árvores na Grande São Paulo.
As enchentes em São Paulo, assim como outras grandes cidades brasileiras, são históricas e recorrentes. Em 2016, por exemplo, 25 pessoas morreram depois de uma noite de chuvas fortes — parte delas em deslizamentos. Em março de 2019, ao menos 12 mortes foram registradas também em decorrência das chuvas.
Em bairros periféricos como Jardim Pantanal e Vila Itaim, no extremo leste da capital, que chegam a ficar meses alagados — constantemente, os moradores perdem móveis e eletrodomésticos para a água que invade suas casas.
Mas seria a chuva forte a principal culpada pelas enchentes? Ou a cidade foi planejada e construída de uma maneira que deixa mais difícil suportar as precipitações? A BBC News Brasil ouviu urbanistas para entender onde a cidade errou e o que poderia ser feito para minimizar o problema.
Para Anderson Kazuo Nakano, professor do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os grandes municípios brasileiros não foram planejados para "respeitar os ciclos hidrológicos da natureza": a evaporação da águas e, depois, as precipitações que atingem as cidades.
"O normal seria a água se infiltrar no solo, para depois desembocar nos córregos e rios, que então correm para o mar. E, assim, o ciclo recomeçaria", explica.
"Quando a chuva chega no espaço urbano, a água cai sobre no solo impermeável e não consegue se infiltrar. Nossos canais e rios estão canalizados. Essas águas, em grande quantidade e velocidade, escorrem para as sarjetas e galerias, que não conseguem suportá-las."
Além disso, diz, cidades como São Paulo tiveram um crescimento desordenado, com ocupações precárias construídas em encostas e várzeas de pequenos rios e córregos, o que desequilibra o curso normal das águas que correm para grandes rios como o Tietê.
"A periferia se expandiu, impermeabilizando o solo de áreas verdes. O ideal seria criar processos de macrodrenagem que pudesse interferir nessa lógica, com a criação de praças e parques lineares ao lado desses pequenos córregos e rios, de modo a fazer com que a água se infiltre mais facilmente", explica o urbanista.
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