
04/02/2020
Eiko Kawauchi anda com uma bengala em uma mão e um machado na outra. Aos 79 anos, ela não se movimenta tão rápido quanto antes, mas, depois de se sentar, ainda consegue manusear a ferramenta com o vigor de uma mulher com metade da sua idade.
Lascas de madeira com aparência úmida logo voam quando Kawauchi corta o tronco de uma árvore de cicadácea, ou sotetsu, como é conhecida no Japão. Kawauchi conta ter aprendido a técnica com seus avós.
Em quase todas as outras partes do país, as pessoas costumam evitar a todo custo essas árvores altamente tóxicas. Quando consumidas cruas, as cicadáceas podem causar sangramento interno, danos ao fígado e até morte.
Mas na distante ilha Amami Oshima, no sudoeste do Japão, a relação dos moradores com essa planta sempre foi diferente.
Parte do arquipélago das ilhas Ryukyu e mais próxima de Taiwan do que de Tóquio, Amami Oshima é tropical o suficiente para que as cicadáceas prosperem.
Muitas vezes confundidas com palmeiras por causa de seus robustos troncos cilíndricos e folhas longas semelhantes a leques, as cicadáceas existem há 280 milhões de anos e são consideradas fósseis vivos.
De fato, essas folhas eram abundantes durante o Período Jurássico. Mas, enquanto os dinossauros não tiveram problemas para digerir a neurotoxina encontrada nas cicadáceas, essas plantas permanecem mortíferas para os seres humanos.
Para os 67 mil moradores de Amami Oshima, as cicadáceas serviram tanto como alimento básico quanto fonte de sobrevivência em tempos difíceis.
Ao longo dos séculos, os ilhéus desenvolveram uma técnica para remover o veneno dessas árvores tóxicas. O método é trabalhoso e dura quatro semanas.
O processo tem início com o corte do miolo do tronco, que é triturado, lavado e secado vigorosamente e repetidamente de forma a liberar as toxinas naturais. Essa combinação acaba produzindo um amido comestível conhecido como nari, que pode ser usado para fazer macarrão ou adicionado ao arroz.
"É um trabalho árduo, sim", diz Toshie Fukunaga, observando Kawauchi empunhar o machado.
Junto com duas amigas também da mesma idade, Fukunaga e Kawauchi estão entre as últimas pessoas na ilha que ainda sabem como processar com segurança as cicadáceas.
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