
23/01/2020
O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou nesta terça-feira (21) no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, que "o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza". A declaração foi feita quando ele comentava sobre a relação entre indústria e meio ambiente.
"As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer", disse Guedes. "Eles [pessoas pobres] têm todas as preocupações que não são as preocupações das pessoas que já destruíram suas florestas, que já lutaram suas minorias étnicas, essas coisas... É um problema muito complexo, não há uma solução simples."
O G1 ouviu especialistas que argumentaram contra a fala do ministro. Para eles, maiores danos ao meio ambiente são causados por latifundiários e grileiros, e que pessoas pobres vivem em situação de vulnerabilidade piorada pelos crimes ambientais.
Para o climatologista brasileiro Carlos Nobre, a fala do ministro "não faz sentido" ao se tratar da floresta amazônica ou de regiões desmatadas do sudeste asiático. Segundo ele, nestas regiões, a maior parte das áreas desmatadas foram destinadas ao desenvolvimento do agronegócio, a pecuária e soja no Brasil e Bolívia; e a exploração do óleo de palma na Ásia.
"São commodities que eliminam toda a floresta", explicou Nobre. "Grandes plantações associadas com grandes empresas que empregam um número muito pequeno de pessoas. A agricultura mecanizada emprega muito pouca gente."
Nobre defendeu a bioindustrialização para a redução da pobreza nas regiões de floresta. "Não existe país desenvolvido que não seja país industrializado", disse Nobre. Para ele, a economia local deve ser desenvolvida com os recursos da biodiversidade local, mas sem provocar danos à natureza.
Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, a fala do ministro foi "infeliz" e o desmatamento está mais relacionado aos grandes latifúndios do que às pequenas propriedades de terra.
"Mais de 90% dos casos de desmatamento na Amazônia são ilegais", disse Rittl. "O maior inimigo do meio ambiente é a condescendência do governo com os crimes ambientais. Grupos por trás da grilagem de terra, da exploração e mineração têm sido recebidos a todo instante por representantes do governo."
Rittl disse que o desmatamento não é provocado por pequenos proprietários de terra, mas pelas "máfias da grilagem". Ele explicou que desmatar é caro, e citou que um trator médio custa por volta de R$ 500 mil.
O secretário-executivo considerou que o governo do presidente Jair Bolsonaro tem uma agenda "claramente anti-ambiental". Ele relembrou que o Fórum de Davos, onde Guedes discursou nesta terça, elegeu temas de sustentabilidade entre os 5 maiores riscos globais para a próxima década.
"É uma fala muito infeliz e contraditória em um ambiente que, pela primeira vez, colocou a sustentabilidade no topo da agenda global", disse Rittl. "Não ajuda em nada a melhorar a péssima imagem internacional do país em termos ambientais."
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