
09/01/2020
Não existe hoje, no planeta, nenhuma área livre de poluição de materiais sintéticos e microplásticos. Mais do que o glitter no carnaval, pesquisas relatam a presença de fibras sintéticas, resultado da lavagem de roupas, registrada em todos os continentes – até mesmo em zonas remotas como geleiras polares.
A contaminação das águas e oceanos com microplásticos vindos das roupas pode ser reduzida com um uso mais consciente da máquina de lavar, disseram pesquisadores e profissionais da indústria têxtil ouvidos pelo G1.
Isso ocorre porque, a cada lavagem, peças de poliéster, náilon e acrílico liberam pequenas fibras que não são capturadas nem pelo filtro da máquina de lavar e nem por esquemas mais avançados de tratamento de esgoto – isso quando há tratamento e a água não é despejada diretamente nos mananciais.
A ingestão de plástico é hoje um dos principais problemas para a conservação das espécies, que consomem as partículas sintéticas ao confundi-las com alimentos. Nos organismos dos animais, elas podem causar obstrução no trato gastrointestinal.
É o que acontece, por exemplo, com tartarugas que ficam impedidas de comer e realizar outras funções fisiológicas, levando-as a um emagrecimento crônico. O sofrimento pode se prolongar por bastante tempo, até o animal morrer, como o G1 mostrou no Desafio Natureza.
A engenheira têxtil Flavia Cesa comentou em entrevista ao G1 que o materiais plásticos dominam 60% da indústria. A opção pelos tecidos sintéticos é feita por serem mais baratos e mais fáceis de trabalhar. Com os baixos preços, as ofertas de lojas de fast fashion (como as de departamento) aumentam o consumo de novas peças – que tendem a liberar mais partículas a cada lavagem.
Nos últimos sete anos, pesquisadores da área ambiental e têxtil começaram a investigar os processos que levam à liberação dessas pequenas fibras sintéticas no ambiente. Cesa explicou que estudos mostram que lugares remotos como as geleiras polares já registraram a presença de contaminação com esses materiais.
"A gente não pode ter certeza sobre a origem dessas fibras. Pode ser da lavagem, do ar – ao se desprender com o atrito do poliéster–, ou que chegaram ao mar a partir de outros produtos têxteis usados na agricultura e pesca. Mas as roupas, hoje, são o principal ponto de estudo na comunidade cientifica."
A engenheira ressaltou que as consequências dos microplásticos despejados sem tratamento afetam a vida marinha: mexilhões cultivados para consumo humano têm, dentro de si, restos deste material plástico.
Animais que, durante a alimentação, ingerem estas fibras têm a sensação de saciedade, mas não estão nutridos, disse a especialista. Em alguns casos, alerta, substâncias tóxicas podem causar problemas de reprodução nas espécies.
"Estudos em laboratório que alimentavam animais com pedaços de plástico, mostravam que eles tinham disfunções endócrinas, e as fibras são facilmente confundidas com plâncton", diz Cesa.
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