
09/01/2020
O primeiro compilado global de temperaturas divulgado sobre o ano de 2019, do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), da União Europeia, indica que o ano passado foi o segundo mais quente da História, em linha com a tendência apontada pelo aquecimento global.
Na série histórica de dados do serviço, que começa em 1979, o ano passado aparece como sendo 0,59° C mais quente em relação à média verificada entre 1981 e 2010, período de referência. O ano passado, marcado pela inação em relação ao problema da emissão de CO2, perde em anomalia de temperatura apenas para 2016, que foi 0,63°C mais quente que a média.
As áreas do mundo que estiveram mais acima da média foram o Ártico, especialmente no Alasca, e o Leste Europeu. O interior do Brasil esteve um pouco acima da média, especialmente no fim do ano, e em dezembro a Austrália, que sofre incêndios florestais devastadores, esteve muito acima da média.
Na Europa, especificamente, foi o ano mais quente da História. No planeta como um todo, os últimos cinco anos foram os mais quentes já registrados. A década que se encerra em 2020 deve terminar como sendo a mais quente também.
A série temporal do C3S é ligeiramente diferente de outros grandes bancos de dados climatológicos, como os da Nasa, da NOAA (Agência Nacional para Oceano e Atmosfera dos EUA) e do Centro Hadley, do Reino Unido. Estes serviços ainda não compilaram o ano de 2019 (falta o mês de dezembro), mas dados parciais também apontam para o ano de 2019 como extremamente quente.
Se a tendência se confirmar, para a NOAA, 2019 é o segundo ano mais quente da história e, para o Hadley, o terceiro. Esses dois serviços têm uma série histórica mais longa, que vai do meio do século XIX até hoje. Jean-Noël Thépaut, diretor do Copernicus, afirma que as diferenças são irrisórias.
— Esses conjuntos de dados da NOAA e do Centro Hadley não cobrem o Ártico e a Antártida, mas são dados muito precisos coletados in situ e começaram há muito tempo — explicou o cientista ao GLOBO. — Parte da explicação para a diferença é que grande parte dos dados de aquecimento que recebemos vem dos pólos, e como esses outros conjuntos de dados não cobrem essas áreas, há pequenas diferenças.
Em comunicado à imprensa, Carlo Buontempo, chefe do C3S, gabou-se de ter conseguido bater Nasa, NOAA e Hadley em produzir um retrato completo das temperaturas de 2019 mais rápido.
"Isso foi possível porque somos um programa operacional, processando milhões de observações terrestres, marinhas, aéreas e de satélite diariamente", afirmou. "Um modelo computacional de última geração é usado para agrupar todas essas observações, da mesma forma com que se produz a previsão do tempo."
Todos os bancos de dados de temperaturas globais apontam que o planeta já está mais de 1°C acima do nível verificado antes da Revolução Industrial. A meta do Acordo do Clima de Paris é impedir um aquecimento acima de 2°C, considerado "perigoso".
Enquanto as temperaturas sobem, as concentrações atmosféricas de CO2 também continuam se elevando em 2019, atingindo seus níveis mais altos já registrados.
A ONU anunciou, no ano passado, que as emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem precisavam cair 7,6% a cada ano até 2030, a fim de limitar o aumento da temperatura para 1,5°C, nível considerado mais seguro. Mas elas continuam subindo.
As promessas atuais dos países de reduzir suas emissões, no entanto, são insuficientes e colocam a Terra em uma rota de aquecimento de 4°C a 6°C até o final do século. Os cientistas alertam que as catástrofes climáticas se tornarão mais frequentes e mais intensas à medida que as temperaturas subirem.
O aumento da temperatura média do globo, apesar de afetar o sistema climático, normalmente é difícil de notar para uma pessoa, porque trata-se de uma diferença da ordem de 1°C. Segundo Thépaut, porém, como o aquecimento global também se manifesta na forma de um aumento no número de eventos climáticos extresmos, as ondas de calor estão tornando a mudança climática mais perceptível.
— O que vimos, especialmente em 2019, é que muitos recordes de temperatura foram quebrados não por 1°C, mas por 2°C ou 3°C, e isso é bem tangível — diz Thépaut. — Eu estava em Paris quando tivemos tivemos uma quebra de recorde no último verão, e realmente me senti como se estivesse num forno.
Fonte: O Globo
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