
05/12/2019
Um trabalho que mapeou a distribuição de espécies marinhas mundo afora ao longo de 30 anos confirmou um temor para o qual cientistas já tinham alertado: o aquecimento global está fazendo peixes e outras criaturas migrarem gradualmente em direção aos pólos e ao fundo do mar.
A tendência de redistribuição de espécies foi constatada por um grupo de cientistas e é descrita em um estudo publicado nesta segunda-feira (25) no periódico acadêmico "Nature Climate Change".
Segundo os cientistas, apesar de o resultado do trabalho ter mostrado uma tendência esperada, mapear esse efeito é importante, pois a mudança climática impacta os mares de forma desigual.
"Regiões com temperaturas estáveis, como por exemplo o Pacífico Norte e o Golfo do México, mostram pouca mudança na estrutura de dominância [afinidade de espécies com água fria ou quente]", escrevem os pesquisadores, liderados pelo biólogo Jorge García Molinos, da Universidade de Hokkaido (Japão). "Por outro lado, áreas com aquecimento, como o Atlântico Norte, veem forte alteração para espécies de dominância de água quente."
Apesar de essa alteração ter potencial de perturbar biomas marinhos e impactar a economia da pesca, o cenário tende a ser melhor do que aquele de ecossistemas terrestres, afirmam os pesquisadores. Em terra firme, algumas populações de plantas e pássaros passaram a colonizar áreas mais montanhosas e em maior latitude, mas a reação pode não ser rápida o suficiente para salvar muitas espécies de mudança climática.
"Diferentemente daquelas em ecossistemas terrestres, espécies marinhas podem ser incapazes de se abrigar de temperaturas extremas, tornando o efeito da temperatura ambiente imediato, inevitável, e mais fácil de detectar", escrevem García Molinos e seus coautores.
Uma das dificuldades dos pesquisadores em medir as alterações causadas pelo aquecimento global na vida marinha é que muitas comunidades de animais estão sendo impactadas pela pela acidificação das águas oceânicas (culpa da concentração de CO2 no ar) e pela pesca predatória. A tendência migratória das espécies descrita no estudo, porém, ocorre de maneira independente desses outros tipos de pressão. Além disso, o estudo sinaliza que águas tropicais, por enquanto, devem ser menos afetadas pelo problema.
Um dos fatores de previsão sobre a adaptabilidade de comunidades marinhas é o grau de variação que a temperatura de um mar têm em relação a áreas rasas e profundas. Quanda a temperatura cai mais rápido com a profundidade, algumas espécies se adaptam ocupando um espaço poucos metros abaixo.
"Essa descoberta nos lembra que a vida no oceano e os impactos da mudança climática sobre ela abrangem um mundo realmente tridimensional", diz García Molinos, em comunicado à imprensa. "Apesar disso, ainda temos a tendência de simplificar a situação ao olhar para esses problemas em duas dimensões, às vezes chegando à conclusão errada."
Fonte: O Globo
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