
24/10/2019
Protocolos acumulados, reclamações de longa data e sentimento de impotência diante de situações que só fazem piorar. Cansados de reivindicar que o poder público dê fim a problemas que afetam seu dia a dia, moradores de diferentes bairros, sozinhos ou em grupos, têm tentado resolver, eles próprios, as pendências.
Há três semanas, o jornalista e professor André Luiz Pereira Nunes decidiu sinalizar por conta própria um quebra-molas que já causou vários acidentes, na altura do número 541 da Estrada do Rio Morto , em Vargem Grande. Comprou pincel e tinta e, num sábado de sol, isolou uma das faixas de cada vez, com ajuda de cones e um carrinho de supermercado, para pintar listras amarelas no asfalto. A iniciativa chamou a atenção de quem passava de carro. Um vídeo da ação circulou nas redes sociais, e Nunes ficou feliz com a aprovação da maior parte dos internautas. Mais feliz ainda ficou na semana passada, quando agentes da CET-Rio estiveram no local para concluir seu trabalho.
— As pessoas acham que da porta para fora o problema é só da prefeitura. Já socorri gente presa nas ferragens e um motociclista que voou por não ter visto o quebra-molas. Ali à noite é um breu. Num sábado em que eu podia estar na praia, acordei e decidi pintá-lo. Muitos me agradeceram, outros me xingaram. Fiz isso como um protesto — conta.
Há cinco anos, Nunes iniciou sua primeira ação para melhorar o espaço público do bairro: o plantio de árvores, também às margens da Estrada do Rio Morto. Ele compra a maioria das mudas e recebe umas poucas doações. A preparação e a manutenção do solo incluem limpeza, capina e técnicas para evitar furtos, como cercar as plantas com estaca e arames. Completam o trabalho pedidos constantes à Comlurb para que instale papeleiras na via e retire entulho jogado na beira da estrada.
— É como diz o biólogo Mário Moscatelli: plantar é fácil, cuidar é que é difícil. Eu mantenho tudo capinado, limpo em volta, cato lixo. Já deparei até com aterro sanitário — conta. — Minha mulher diz que é hobby, mas não me diverte nem me distrai. Isso é indignação, não consigo não fazer nada.
A Comlurb diz que faz a limpeza da área do Rio Morto rotineiramente e que a limpeza dos canais é com a Rio-Águas. Esta, por sua vez, informa que realiza, até a primeira quinzena de novembro, uma operação para retirada de gigogas do local.
No Jardim Oceânico, moradores organizaram uma força-tarefa para melhorar o bairro nos quesitos ordem e limpeza. O Somos Jardim Oceânico foi criado há três anos e tem agregado outros movimentos, como o Florescendo Jardim Oceânico (voltado para as áreas verdes), o JO Quatro Patas (de distribuição de sacos para coleta de fezes de animais) e o Olegário Legal (parceria com comerciantes da Avenida Olegário Maciel).
O entorno da estação do metrô é o principal ponto de ação do grupo, que denuncia irregularidades e põe a mão na massa. Os participantes fazem mutirões de limpeza e revitalização, protocolam queixas no telefone 1746, da prefeitura, e vão às reuniões do Conselho Comunitário de Segurança.
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