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Quando medir o ciclo não basta

13/10/2026

Imagine uma garrafa PET sobre a mesa. Geralmente pensamos nela apenas como uma garrafa, mas, antes disso, sua matéria-prima foi extraída da natureza, transformada, transportada, convertida em embalagem, preenchida, comercializada e apenas o seu conteúdo foi consumido. Depois de alguns minutos de uso, uma nova trajetória começa e, na realidade brasileira, ainda cercada de incertezas: ela pode ser coletada, reciclada, reutilizada, aterrada ou simplesmente perdida no ambiente.
Hoje conseguimos avaliar, com bastante sofisticação, os impactos ambientais potenciais associados a esse percurso. A Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), estruturada pelas normas ISO 14040 e ISO 14044, é uma das principais ferramentas para isso. Em vez de considerar apenas uma etapa, ela amplia a fronteira da análise e permite avaliar entradas, saídas e impactos potenciais ao longo do ciclo, reduzindo o risco de resolver um problema em determinado ponto apenas transferindo seus impactos para outro.
No Brasil, esse exercício já foi realizado no estudo Análise do Ciclo de Vida das Embalagens PET para Alimentos Líquidos, coordenado pela ABIPET, com participação de entidades setoriais e dados de diferentes atores da cadeia. Desenvolvido tecnicamente pelo ITAL/CETEA e pela ACV Brasil e submetido a revisão crítica segundo as ISO 14040 e 14044, o trabalho analisou embalagens para água, refrigerantes e óleos e demonstra o potencial da ferramenta para transformar uma cadeia complexa em informações comparáveis e úteis à tomada de decisão.
Aqui está uma das principais contribuições da ACV: revelar relações e impactos que dificilmente seriam compreendidos quando consideramos apenas o produto final. Se conseguimos identificar impactos ambientais potenciais, comparar alternativas e reconhecer pontos críticos ao longo do ciclo, a lógica natural nos diria que esse conhecimento deveria levar a mudanças capazes de reduzir os impactos identificados e, com isso, resolver o problema. Certo?
Bem, infelizmente as coisas não funcionam exatamente assim. Voltemos à garrafa. Saber que aumentar o conteúdo reciclado pode reduzir determinados impactos não faz surgir, automaticamente, matéria-prima reciclada na quantidade, qualidade, regularidade e preço necessários. Entre reconhecer uma alternativa ambientalmente preferível e implementá-la em escala existe uma complexidade muito maior.
No pós-consumo, entram nessa equação sistemas de coleta, comportamento do consumidor, infraestrutura de logística reversa, tecnologia, capacidade da indústria recicladora, preço da matéria-prima virgem, demanda, regulação e incentivos econômicos. Mas sistemas também carregam sua própria história. Investimentos realizados, infraestrutura instalada, políticas públicas e modelos de negócio consolidados criam dependências e custos afundados que podem produzir bloqueios e resistência à mudança, mesmo quando sua necessidade já é conhecida.
Diante dessa dinâmica, a ACV continua sendo fundamental, mas precisamos considerar outras dimensões a partir daquilo que ela nos permite conhecer. Não basta compreender como os impactos se distribuem pelo ciclo. Precisamos entender por que esse ciclo se organiza dessa maneira e quais relações fazem com que determinado comportamento permaneça estável mesmo quando alternativas melhores já são conhecidas.
É nesse ponto que uma leitura sistêmica complementa a análise técnica. Sistemas não mudam necessariamente porque identificamos uma solução melhor. Eles respondem a incentivos, restrições, dependências construídas ao longo do tempo e mecanismos de retroalimentação. Uma intervenção no lugar errado pode produzir pouco efeito positivo e até levar a efeitos colaterais indesejados. No lugar certo, uma mudança regulatória, tecnológica, econômica ou comportamental pode alterar incentivos e gerar novos feedbacks capazes de reorganizar partes importantes do sistema.
Isso não reduz o valor da ACV. Ao contrário. Significa levar seus resultados a sério o suficiente para perguntar o que fazemos com aquilo que passamos a conhecer.
Há ainda uma terceira dimensão. Se uma ACV identifica que determinada etapa da cadeia apresenta contribuição relevante para um impacto ambiental potencial, podemos concluir que o agente responsável por ela causou, juridicamente, um dano ambiental?
Não necessariamente. Impacto ambiental potencial, dano ambiental e responsabilidade jurídica não são conceitos equivalentes. Mesmo na responsabilidade civil ambiental objetiva, em que a demonstração de culpa não constitui requisito, não podemos converter a contribuição identificada pela ACV em parcela automaticamente atribuível de responsabilidade. A caracterização do dano e a relação causal juridicamente pertinente pertencem a outra dimensão de análise.
O mesmo cuidado vale para o princípio do poluidor-pagador. Identificar onde determinada carga ambiental está associada ao ciclo não determina automaticamente quem deve responder juridicamente por ela. A ACV pode produzir informação relevante, inclusive sobre riscos e impactos conhecidos ou previsíveis, mas não substitui os critérios próprios da análise jurídica.
Chegamos, então, ao mesmo objeto por três caminhos. A dimensão técnico-ambiental mede e ajuda a compreender impactos potenciais ao longo do ciclo. A dimensão sistêmica investiga estruturas, incentivos, feedbacks e dependências que fazem determinados resultados serem produzidos e reproduzidos. A dimensão jurídica avalia quando essas consequências podem gerar deveres, obrigações ou responsabilidades.
Elas se comunicam, mas não se sobrepõem. Cada uma possui perguntas, métodos e limites próprios. É no diálogo entre elas que podemos construir uma compreensão mais consistente dos desafios ambientais que buscamos enfrentar.
A garrafa sobre a mesa continua sendo a mesma. O que muda é o prisma pelo qual a analisamos: um produto que demanda recursos, atende necessidades, movimenta cadeias econômicas e, ao longo de sua existência, produz impactos ambientais potenciais.
Medir é fundamental, mas não basta. Compreender as relações que produzem e sustentam o impacto amplia nossa capacidade de intervenção. Responsabilizar, quando cabível, pertence a outra dimensão. Transformar exige saber onde e como agir.
Logo, o maior valor de uma ferramenta como a ACV não está apenas nas respostas que produz, mas também nas novas perguntas que seus resultados nos permitem formular. É a partir delas que podemos conectar o conhecimento técnico a outras dimensões e saberes, ampliando nossa capacidade de construir soluções mais completas.

Fonte: CicloVivo

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