
06/10/2026
Juan Estanislao Muñoz está acostumado com secas intensas. Mas ele garante que a seca atual não tem precedentes.
"Tenho 61 anos e nunca, na minha vida, vi uma seca como esta", afirma ele. "Não haverá colheita, não haverá nada."
Muñoz é agricultor e mora com um sobrinho na comunidade das Chácaras no Departamento de Choluteca, no sul de Honduras.
Sua casa fica no Corredor Seco da América Central, uma faixa de terra que atravessa parte da Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica.
Mais de 10 milhões de pessoas moram na região. Ali, mais de 70% da população rural vive na pobreza e mais de um milhão de crianças sofrem atraso de crescimento causado pela desnutrição, segundo a ONU.
E, nesta região já tão vulnerável, o fenômeno El Niño se soma às mudanças climáticas, agravando a escassez de água e levando milhares de famílias a uma situação de emergência e desespero.
O El Niño é uma variação natural que ocorre a cada dois a sete anos, elevando as temperaturas superficiais de uma vasta zona do Pacífico.
O fenômeno dura cerca de um ano e altera os padrões dos ventos e chuvas em todo o mundo. Com isso, aumenta a probabilidade de secas e incêndios florestais, em algumas regiões do planeta, e de chuvas torrenciais e inundações, em outras.
Uma das medidas empregadas para medir o aquecimento do oceano Pacífico indica que o El Niño atual é o mais forte desde 1900, segundo afirmou à BBC o Serviço Meteorológico do Reino Unido.
Os impactos do fenômeno já causam estragos no Corredor Seco da América Central, onde milhões de famílias da zona rural dependem da agricultura de subsistência para produzir milho e feijão.
Os agricultores da região costumam cultivar o solo duas vezes por ano. Um primeiro ciclo ocorre entre maio e agosto e um segundo, chamado de ciclo final, entre agosto e dezembro.
"Na primeira colheita, não tivemos nada. Agora, a terra está limpa para o plantio, mas, se não chover, não teremos produção de milho", conta Muñoz.
"Tenho uma vaca, mas, agora, ela não está comendo pasto, mas sim terra, folhas... O gado aqui está morrendo de sede e de fome."
A diretora regional do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA) para a América Latina, Lena Savelli, acaba de visitar Honduras.
"O que mais me impressionou foi observar como a seca transformou completamente a paisagem e a vida das pessoas", contou ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"Visitei Choluteca, uma comunidade onde o rio que abastecia famílias inteiras há anos, hoje, é simplesmente um caminho cheio de terra e pedras."
"Conversei com agricultores que perderam grande parte das suas colheitas de milho e feijão porque as chuvas nunca chegaram como eles esperavam", relata Savelli.
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